Escritos
B. Piropo
Coluna em IT Web:
Volte de onde veio
19/02/2013
< Batatas, quem diria... >

Eu confesso que por mais que eu procure me manter informado sobre tecnologia e, como engenheiro que sou, tenha um conhecimento razoável dos aspectos técnicos do funcionamento de computadores, telefones espertos, tabletes e afins, continuo me espantando com o fato de um bichinho daqueles poder derrubar um avião. Mas como todas as companhias aéreas em todo o planeta apelam insistentemente para que sejam desligados durante o pouso e a decolagem e como não creio que isto seja um complô organizado por elas para aporrinhar seus passageiros, sou obrigado a acreditar que pode mesmo. Se bem que toda vez que ouço este apelo lembro do ocorrido há alguns anos em um de meus muitos embarques, onde um segurança de maus bofes insistiu em confiscar de uma passageira um objeto que poderia ser usado como arma. A passageira, uma simpática senhorinha que aparentava oitenta anos, apelava com tanta ênfase para que deixassem com ela o objeto ou pelo menos o entregassem ao comandante para que lhe fosse devolvido após o pouso, que provavelmente a temível arma deveria ter para ela algum valor estimativo. Mas o segurança foi inflexível: não cedeu aos pedidos de misericórdia da velha senhora e confiscou definitivamente sua ameaçadora tesourinha de unhas. Pois da mesma forma que não consigo entender exatamente como uma frágil senhora octogenária armada com uma tesourinha de unhas conseguiria sequestrar um Boeing 767, me custa entender como meu mísero telefone pode derrubá-lo. Mas, obedientemente, o desligo.

Viageiro contumaz desde muito antes que esses aparelhinhos fossem inventados, sou testemunha viva de que, logo que apareceram, a ordem era mantê-los desligados durante todo o voo. Hoje, as coisas melhoraram e, felizmente, superados os dez mil pés de altura, já é permitido ligá-los. O que tornou os longos voos internacionais muito mais amenos e produtivos, já que com a permissão para uso dos computadores portáteis, sempre é possível executar alguma tarefa importante durante as longas horas de voo. Em sua próxima viagem internacional preste atenção e veja quantos sisudos homens de negócio, engravatados e com expressão atenta, usam seus computadores portáteis para se dedicarem com afinco àquele joguinho de paciência que vem com Windows.

Aí, veio a Internet e mudou tudo. Afinal, de que serve um dispositivo móvel, seja tablete, telefone esperto ou computador portátil, se não estiver conectado?

E apareceram as companhias aéreas que oferecem serviços de Internet à bordo via conexão WiFi. Basta fazer uma busca no Google com a expressão "in air wifi airways" que aparece uma longa lista de empresas que oferecem o serviço. Então, se você precisa se manter conectado durante o voo para alguma atividade essencial à sua sobrevivência (conheço pessoas que não podem passar mais de meia hora sem acesso ao Facebook sob o risco de sofrer uma síncope nervosa), consulte a lista, entre no sítio da companhia e veja se o serviço é oferecido no seu voo.

É claro que dentro do avião quem oferece o serviço é a companhia aérea, que mantém um ponto de acesso ("hot spot") no interior da aeronave. Mas de onde este ponto de acesso capta o sinal da Internet para transmiti-lo via WiFi para seu computador?

Bem, andei pesquisando e só encontrei duas empresas que geram sinal e o enviam para as aeronaves: Gogo In Air e Row 44.

A primeira usa uma rede própria de telefonia celular com células distribuídas no solo ao longo das rotas das aeronaves comerciais em território americano e, segundo eles mesmos, enviam o sinal "para cima" (não discutam comigo, discutam com eles depois de assistir, na < http://www.gogoair.com/gogo/cms/work.do > página da Gogo, o vídeo "How Gogo Works" onde a empresa explica o funcionamento do sistema). Como é baseada em uma rede de telefonia celular, o serviço funciona apenas enquanto a aeronave estiver sobrevoando o território americano. Os preços não são exorbitantes, especialmente se considerarmos a conveniência de manter contato com a terra durante todo o voo: US$ 14 por um dia de utilização, US$ 39,95 mensais para uso em sua empresa aérea preferida e US$ 49,95 mensais para uso em qualquer empresa servida pela Gogo (há nove delas listadas no sítio da Gogo, incluindo American, Delta e United).

A Row 44 usa um sistema diferente: transmissão de sinal via satélite. Por isto, alega ofertar cobertura mundial e oferece, inclusive, serviço de telefonia via voz. Mas, da lista de empresas aéreas associadas, o único nome mais popular é a SouthWest americana (as demais são empresas da Noruega, Rússia, Islândia e África).

Há uma < http://en.wikipedia.org/wiki/Row_44 > entrada na Wikipedia sobre Row 44, mas como a própria Wikipedia comenta, o texto mais parece propaganda da empresa que um verbete de enciclopédia. Os custos variam de empresa para empresa, mas também não são exorbitantes. A SouthWest, por exemplo, cobra US$ 5 por voo.

Muito bem, isto resolve o problema da transmissão do sinal até a aeronave. Falta resolver o problema da transmissão do sinal no interior do avião, desde o ponto de acesso WiFi até o receptor do sinal em seu assento. E se você pensa que esta parte é a mais fácil, se engana.

Do ponto de vista da transmissão de um sinal sem fio, o interior de um avião é um lugar um bocado conturbado. A intensidade do sinal oscila muito em um ambiente heterogêneo, atulhado de poltronas, cortado por corredores e, sobretudo, cheio de passageiros. Cujos corpos – aposto que você nunca havia pensado nisto – absorvem e refletem a radiação fazendo com que o sinal oscile.

O que nos traz ao ponto que chamou minha atenção para o problema e acabou me levando a escrever esta coluna: o artigo de Jason Keyser publicado na AP intitulado < http://bigstory.ap.org/article/boeing-engineers-use-spuds-improve-air-wi-fi > "Boeing Engineers Use Spuds To Improve In-Air Wi-Fi" (Engenheiros da Boeing usam batatas para melhorar o sinal WiFi em aeronaves).

Seguinte: considerando as dificuldades na propagação do sinal nas cabines das aeronaves, engenheiros do laboratório de Testes e Avaliação da Boeing no Arizona decidiram efetuar testes em escala real para desenvolver um sistema menos sujeito a falhas e interferências. Como o fato da aeronave estar ou não em voo é indiferente, os testes foram realizados no solo em uma aeronave fora de serviço.

O problema é que testes em escala real para avaliar a propagação do sinal no interior da cabine de um avião pressupõem a presença de passageiros em todos ou alguns assentos, já que seus corpos exercem influência no fenômeno. E estes testes podem durar alguns dias.

Como manter passageiros sentados no interior de uma cabine de avião durante dias a fio enquanto os testes são realizados? Não dá...

A solução encontrada pela equipe técnica da Boeing foi procurar algum material cuja influência na propagação do sinal fosse igual ou o mais semelhante possível à exercida pelo nosso corpo.

Durante as pesquisas, um dos membros da equipe se deparou com um artigo técnico no Journal of Food Science descrevendo pesquisas efetuadas com o objetivo de determinar as propriedades dielétricas de quinze tipos de frutas e legumes usados como alimento (hoje em dia se pesquisa cada coisa que só vendo). E descobriram que, devido a seu conteúdo de água e constituição química, aquele que refletia e absorvia as ondas que transportavam o sinal WiFi de forma mais semelhante ao corpo humano era a batata.

Resultado: compraram dez toneladas delas, distribuíram-nas nos assentos mais ou menos no formato ocupado por um corpo humano (veja figura, foto da própria Boeing), executaram os testes pelo tempo necessário sem ouvir sequer uma reclamação proveniente de qualquer dos "passageiros", que permaneceram imóveis durante todo o tempo sem sequer ir ao banheiro, coletaram dados suficientes para serem submetidos a uma complexa análise estatística e, baseados nos resultados, desenvolveram um sistema proprietário para ajustar com precisão a emissão dos sinais WiFi de tal modo que eles fossem igualmente bem recebidos em qualquer assento da aeronave.

E, com apropriada dose de bom humor, denominaram a pesquisa "Synthetic Personnel Using Dialectic Substitution" (Pessoas Sintéticas Usando Substituição Dielétrica), ou SPUDS. Que, em inglês, quer dizer "batatas".

Repare, na figura, a postura aprumada, elegante e confortável do "passageiro" em seu assento...

Figura 1: "Synthetic Personnel Using Dialectic Substitution"



B. Piropo


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