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10/06/1991
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A grande revolução da história dos micros pessoais aconteceu em agosto de 1981 quando a IBM lançou seu primeiro PC. Não tanto pela máquina em si - afinal, para os padrões de hoje, ela não era lá grande coisa. Mas pela estratégia adotada pela IBM. Na verdade, dizem as más línguas, essa estratégia escondia alguma incerteza sobre a aceitação do produto. Pois até então o mercado de micros pessoais era dominado por duas marcas concorrentes: a Apple, com o Apple II, e a Radio Shack, com o TRS 80, cada uma com seu próprio sistema operacional. E algumas marcas menos votadas, utilizando o CP/M. E todas elas eram máquinas de 8 bits. As vendas anuais se situavam na casa das dezenas de milhares de unidades: não era um mercado gigantesco, mas não era desprezível. E ninguém suspeitava - nem mesmo a IBM - de seu imenso potencial. Ao que parece a IBM decidiu-se por uma política cautelosa: ao invés de desenvolver um micro com componentes feitos especialmente para ele, o que iria exigir elevado investimento, adotou a chamada arquitetura aberta: usar apenas os disponíveis no mercado, ao alcance de qualquer fabricante. Mas, para se situar a frente dos demais, escolheu para CPU do novo micro o chip 8088 da Intel. A IBM não sabia, mas com essas duas decisões estava criando um novo padrão mundial e lançando uma máquina que iria influir no comportamento da sociedade moderna. Falar sobre o sucesso de vendas desses micros é dispensável. Mas é importante cita-lo, pois ele criou um mercado extraordinário. E esse mercado atraiu dezenas - hoje, centenas - de concorrentes produzindo máquinas mais baratas. E como a arquitetura aberta lhes permitia usar os mesmos componentes, suas máquinas eram inteiramente compatíveis com o padrão. Como vêem, não foi sem razão que a linha PS/2 usou uma "arquitetura fechada", a chamada Micro Channel Architeture, patenteada pela IBM. Ela não gosta de cometer o mesmo erro duas vezes. Mas foi exatamente por ter adotado uma arquitetura aberta em seus primeiros PC que ela permitiu a extraordinária expansão do uso dos micros pessoais em todo o mundo. E qual a importância do chip 8088? Bem, para entendê-la vamos discutir simplificadamente o funcionamento de uma CPU - o coração de nosso micro, quem controla as ações da máquina. Ela tem "registros", ou locais onde pode guardar valores e alterá-los. E, se necessário, realizar operações com eles, como incrementar, decrementar, comparar, combinar, somar, subtrair e multiplicar. Dentre esses, alguns contêm dados. Outros, especialmente importantes, "apontam" para a memória, ou seja, guardam endereços de memória. O que contém a memória de sua máquina enquanto um programa está rodando? Basicamente dois tipos de informações: dados e instruções. As instruções são códigos que a CPU sabe interpretar e que a informam do que fazer, ou seja que operações executar. E dados são informações que o programa usa. E para que o programa rode, a CPU precisa poder usar qualquer dado e interpretar qualquer código contido na memória, encontrando-os seja onde estiverem. Como saber onde encontrar um dado ou uma instrução? Ora, pelo endereço. Pois cada um deles ocupa uma posição de memória que pode ser identificada por um número, ou endereço. Logo, nos registros da CPU que apontam para a memória, deve "caber" qualquer endereço - do menor ao maior. Portanto a memória da máquina não pode exceder ao maior número que pode ser guardado nesses registros - senão, como apontar para seu endereço? Os chips até então usados nas CPU das máquinas existentes tinham registros de 8 bits para conter dados. Por isso eram máquinas de 8 bits. Mas os que apontavam para a memória tinham 16 bits. Lembra da nossa discussão sobre bits e bytes? Então responda depressa: qual o maior endereço para o qual pode apontar um registro de 16 bits? Muito bem: 65535. Portanto, o máximo de memória que um micro que use uma dessas CPU pode acessar de uma só vez é 64Kbytes. Em uma dessas máquinas, a soma da memória ocupada pelos dados e pelo código jamais pode exceder a 64K. Como funciona? Fácil: o programa é "carregado", ou seja, armazenado na memória, juntamente com os dados. Um registro muito especial, o "ponteiro de instruções" é carregado com o endereço da primeira instrução do programa. Ela é executada, e o ponteiro incrementado para apontar para a próxima. E assim sucessivamente. Claro que isso é uma enorme simplificação: algumas instruções podem modificar o próprio ponteiro de instruções, de forma a fazer o programa "saltar" para diferentes blocos de código conforme determinadas condições, outros registros apontam para dados, que podem ser somados, subtraídos, alterados e movidos para distintas posições de memória. Mas a idéia geral é essa. E sempre dentro daqueles exíguos 64K. E é aí que entra o chip 8088. Em essência, é uma CPU de 8 bits: seus registros de dados têm 8 bits e os apontadores 16. Mas apresenta uma diferença fantástica sobre os concorrentes da época: tem mais um conjunto de registros - os chamados registros de segmento, também de 16 bits - que podem ser combinados de maneira extremamente engenhosa com os apontadores, permitindo o acesso a endereços contidos em 20 bits. Na verdade esses endereços não se apresentam de uma forma contínua, mas em "pedaços" (ou segmentos) de 64K cada um. Quantos segmentos? Ora, não acrescentamos mais quatro bits? Qual o maior número que cabe aí? Isso, quinze. Se a eles somarmos o primeiro segmento, aquele que começa em zero, teremos um total de dezesseis. E dezesseis segmentos de 64K correspondem a 1024K, ou seja um Megabyte. Não por acaso o maior número que "cabe" em 20 bits: 1048580. Eu sei, você pensava que era um milhão redondo, não é? Mas lembre-se do sistema binário... Isso era fantástico: uma vastidão impensável até então - 1981, não se esqueçam. Tão absurdamente grande que o sistema operacional desenvolvido para essa máquina pôde se dar ao luxo de reservar seis segmentos inteiros - 384K - para seu uso exclusivo, deixando os outros dez, a imensidão de 640K, para os programas: dez vezes mais que a maior memória da época poderia sonhar. Não os culpe. Os tempos eram outros. Os programas eram todos desenvolvidos em assembly e exibidos em telas de texto. Não havia enormes arquivos de ajuda. E janelas eram apenas aquelas coisas pelas quais a gente apreciava a paisagem... B. Piropo |
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