Escritos
B. Piropo
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24/01/94

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Vocês repararam como 93 foi pobre em inovações? Sim, é verdade que, de hardware, tivemos três novos microprocessadores: o Pentium da Intel, o Alpha da DEC e o Power PC da IBM e Motorola. Além do novo padrão de local bus, o PCI da Intel. Quanto a software, de relevante mesmo só me ocorre o Windows NT. Talvez não seja pouco e nós é que estávamos mal acostumados. Mas, pensando bem, seja pelo preço, seja porque a Intel ainda não conseguiu resolver os problemas de aquecimento que até o momento a impediram de lançar a versão de 100MHz, o Pentium ainda não decolou. O Alpha, por sua vez, foi criado tendo em mente Windows NT, e talvez por isso se ouça falar tão pouco dele. E do Power PC não se pode dizer que deu xabú, mas parece que a IBM e a Motorola ainda não resolveram inteiramente certas pendências, e fora os anúncios da Apple sobre seus novos Power Mac, também não se falou muito dele. Quanto a Windows NT, mostrou-se um bom sistema operacional para servidores de rede, mas um tanto pesado para rodar nas máquinas clientes. E para máquinas individuais, não ligadas em rede, nem pensar: nem a Microsoft o recomenda para isso. Sobrou o PCI. Que, embora ainda engatinhando, já tem apoio suficiente da indústria para merecer respeito. Mesmo competindo com o VESA, que leva mais de ano de vantagem, tem poder de fogo suficiente para vir a se tornar o padrão de fato de barramento local. É pouco. Comparando com anos recentes, quando despontaram os CDROM, a Multimidia, os padrões VESA e PCMCIA, os notebooks - só para falar nas inovações mais significativas - é muito pouco. Tudo indica que indústria deu uma parada para avaliar a situação. E parece que isso tem algo a ver com a queda dos preços. As empresas, com a margem de lucro reduzida, diminuíram os investimentos em pesquisa e desenvolvimento. E, em um mercado que pratica preços cada vez mais baixos, tendem a se tornar mais cautelosas. Em 93 a queda de preços foi brutal. Um exemplo: o mesmo micro 486SX 33MHz da Dell, com o mesmo HD de 170Mb, os mesmos 4Mb de RAM e o mesmo monitor SVGA, era anunciado nos EUA em dezembro de 92 por US$ 1999 e em dezembro de 93 por US$ 1499, com vídeo local bus, não incluído no outro. Em exatamente um ano uma queda de 25%, ou US$ 500 a mais no bolso do freguês. O resultado foi uma mudança perceptível no mercado americano. Algumas empresas pequenas simplesmente desapareceram por não alcançarem volume de vendas suficiente para sobreviver com as margens de lucro cada vez mais baixas. As grandes tiveram que entrar na dança e baixar os preços. O consumidor ficou mais exigente - o de lá, bem entendido, mas as mudanças acabam por se refletir aqui. E o aumento das vendas pelo correio nos EUA, que praticam os preços mais baixos do mercado, exerceu decisiva influência nessa tendência. Companhias que vendem exclusivamente pelo correio não precisam investir em instalações luxuosas nas áreas comerciais mais caras dos grandes centros nem necessitam manter um quadro de vendedores pesado: um depósito e uma sala em um bairro qualquer de qualquer cidade "barata", algumas linhas telefônicas e um bom suporte técnico bastam. Os custos baixos se refletem nos preços que, caindo, aumentam o volume de vendas, o que permite baixar ainda mais a margem de lucro e praticar preços ainda menores. Então, ao que parece, o consumidor está às portas do paraíso: equipamentos cada vez mais poderosos a preços cada vez mais baixos. Mas por quanto tempo? Não creio que essa moleza ainda dure muito. Tudo indica que estamos no fim de um ciclo: empresa alguma pode sobreviver baixando os preços indefinidamente. Cedo ou tarde as menores fecharão as portas - o que aliás já está acontecendo. O mercado irá se "depurar". A concorrência diminuirá, puxando os preços para cima. E entraremos em um novo ciclo. Onde as opções de fabricantes e modelos serão menores e os preços serão maiores. O que alargará a margem de lucro, tornando o mercado interessante para novas empresas, que aumentarão a concorrência e diminuirão os preços, detonando um novo ciclo. Conclusão? Ora, o mercado é cíclico. Há ocasiões em que os preços são altos, as opções de fornecedores reduzidas, os investimentos em pesquisa e desenvolvimento mais pesados e surgem mais inovações no mercado. Há outras, como agora, em que ocorre exatamente o oposto. Acredito que estamos no final deste ciclo. Mas em uma situação muito especial: embora 93 não tenha sido um ano pródigo em inovações, os que o antecederam gestaram maravilhas. E o universo de badulaques e penduricalhos que se pode agregar a um micro poderoso a preços incrivelmente baixos nunca foi tão grande: CD-ROMs a menos de US$ 200, placas de som a menos de US$100, impressoras coloridas na faixa dos US$ 1000, enfim, coisas impensáveis em um passado recente (meu primeiro disco rígido de 32Mb comprado há cerca de sete anos me custou a bagatela de US$ 600). Portanto, aproveitem. A hora é essa. Daqui a pouco aqueles microprocessadores citados lá em cima decolarão. As opções serão menores. Os preços subirão. Não se esqueçam que hoje, para todos os efeitos práticos, o topo da linha ainda é o 486 DX2/66. E, sem querer fazer propaganda da Dell, mas só para usar o mesmo fornecedor como exemplo, um bicho destes com 16Mb de RAM, HD de 450Mb, placa aceleradora de vídeo, monitor de 15" e drive CD-ROM double-spin pode ser comprado nos EUA por menos de três mil dólares. Repito: esse é o topo da linha. Eu nunca vi coisa igual... PS: Em menos de um mês, por duas vezes o mau tempo e a ponte aérea me pousaram no Galeão. Em uma a Varig me instalou em um taxi e meia hora depois de tocar o solo eu estava em meu carro no Santos Dumont. Na outra, o pessoal de terra da Transbrasil não conseguiu se entender com o de bordo, com a administração do aeroporto e muito menos com os passageiros. Ninguém dizia coisa com coisa. Uma babel. E, ao que parece, passageiro da Transbrasil não merece taxi: quase uma hora depois de pousar, ainda no Galeão, me embarcaram em um ônibus para o Santos Dumont. Mesmo passagem, mesmo preço, mesma ponte aérea. Mas que diferença de tratamento!

B. Piropo