Sítio do Piropo

B. Piropo

< Jornal Estado de Minas >
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08/01/2004

< Cuidado com a mamãe >


É chato ter que voltar a este assunto logo no início do ano, mas o que fazer? Aos pobres doentes mentais que odeiam seus semelhantes e desenvolvem vírus pelo simples prazer de prejudicar a quem nem ao menos conhecem, juntaram-se os “spammers”, uma imensa comunidade de indivíduos que usam a Internet como veículo barato de fazer propaganda de quase tudo, mandando mensagens não solicitadas que alardeiam as virtudes desde os mais mirabolantes produtos e técnicas para aumentar o tamanho do pênis até, quem diria, de programas “anti-spammers”, ou seja, que teoricamente nos protegeriam deles mesmos. E a disseminação de novos vírus e vermes, que parecia declinante no início de 2003 graças à melhoria de desempenho dos programas anti-vírus e à conscientização da comunidade micreira, ao que parece voltou a crescer. Ao que tudo indica devido à adesão dos “spammers”.
Mas o que têm os “spammers” a ver com vírus? Bem, é que essa categoria de débeis mentais tornou-se um problema mundial (estima-se que mais da metade do tráfego de mensagens de correio eletrônico na Internet deve-se à sua ação) e já há um forte movimento no sentido de aprovar leis contra essa prática, inclusive em lugares que levam a sério a legislação, como os EUA e alguns países europeus. O resultado é que, para um spammer, é essencial que seja impossível chegar até ele reconstituindo o caminho de sua mensagem através da Internet. Interesse que compartilham com os desenvolvedores de vírus. E para isso nada melhor que um “proxy aberto”.
“ Proxy” é uma máquina que se interpõe entre uma rede local e a Internet. Tudo o que trafega entre a rede e a Internet passa pelo servidor proxy. Sua função é proteger a rede local: se, durante a conexão de uma máquina da rede com um sítio mal intencionado houver uma tentativa de invasão da rede, ela é interceptada pelo proxy (que tem seu próprio endereço IP, ou seja, uma “identidade” diferente daquela da máquina que está fazendo o acesso) e rechaçada pelo “firewall”, um programa de segurança instalado no proxy para este fim.
Ora, como tudo o que trafega entre a rede local e a Internet passa pelo proxy, as mensagens de correio eletrônico não poderiam ser exceção. E como ele se interpõe entre a rede e a Internet, se alguém “traçar” o caminho de uma dessas mensagens em busca de sua origem, só chegará até o proxy, que impede a visão de qualquer ponto do interior da rede. É como se a mensagem tivesse se originado no proxy.
Ora, sendo o proxy o elo entre a rede local e a Internet, é fácil a um indivíduo mal intencionado chegar até ele, que está exposto com o fim de proteger a rede. Administradores de rede competentes e responsáveis configuram seus proxies de forma a permitir acesso somente a pessoal autorizado. Mas nem todos se preocupam com isso. Afinal, se o proxy impede qualquer invasão à rede, porque se preocupar com os acessos ao próprio proxy?
Proxies que permitem acesso a qualquer um são conhecidos como “proxies abertos” (“open relays”). Quem obtém seus dados pode se aproveitar disso para enviar mensagens de correio eletrônico através deles, mensagens cuja origem somente pode ser traçada até o proxy. Ou seja: um negócio ideal para quem deseja enviar um número imenso de mensagens de correio eletrônico e permanecer anônimo. Um interesse comum a dois tipos de salafrários: criadores de vírus e spammers.
Resultado: a partir de meados do ano passado começaram a aparecer vermes que, além das maldades habituais como disseminar-se descontroladamente, remover ou corromper arquivos do disco rígido e coisas que tais, instalam nas máquinas contaminadas um programa que faz com que elas, quando conectadas à Internet, passem a atuar como um proxy aberto. Ou seja: um ponto do qual mensagens podem ser enviadas sem que seja possível traçar sua origem.
O primeiro deles foi o Sobig, que criou uma rede de milhões (literalmente) de proxies abertos. Outros vermes se seguiram com o mesmo propósito. Hoje, segundo artigo de Robert Vamosi em
<http://reviews-zdnet.com.com/AnchorDesk/4520-7297_16-5114861.html?tag=adss>,
listas de open proxies são comercializadas a peso de ouro em salas de chat e similares em todo o mundo. E o número de novos vermes voltou a crescer.
Um deles é o MiMail.I, também conhecido por Paypal, detectado em meados de novembro passado. Ele chega anexo a uma mensagem em inglês, supostamente enviada pela empresa PayPal, usada para efetuar pagamentos por via eletrônica, solicitando que o usuário rode um programa anexo para atualizar seus dados (inclusive senha e números de cartão de créditos). É claro que o programa instala o vírus, envia os dados para seus mal intencionados criadores e se dissemina mandando cópias da mensagem para os endereços de correio eletrônico que encontra na máquina contaminada (veja mais detalhes, assim como providências para eliminar o vírus, no sítio da F-Secure, em <http://www.f-secure.com/v-descs/mimail_i.shtml>). Outro é o Jitux.A, que se dissemina tanto por correio eletrônico quanto pelo MSN Messenger. A mensagem convida a vítima a visitar um URL de onde é baixado o programa Jituxramon.Exe que, ao ser executado, se instala na memória e a cada cinco minutos envia novas mensagens via MSN ou correio eletrônico a todos os destinatários que encontra listados na máquina infectada. Aparentemente ele não faz mais nada além de se multiplicar, mas suspeita-se que seja mais um a criar uma rede de proxies abertos (ou pelo menos um “balão de ensaio” para uma futura versão com essa finalidade). Mais detalhes sobre o Jitux podem ser encontrados no sítio da Trend Micro, em
<www.trendmicro.com/vinfo/virusencyclo/default5.asp?VName=WORM_JITUX.A>.
Mas da nova safra o mais perigoso parece ser o PE_QUIS.A, também conhecido por Belzy. Foi detectado semana passada e está se disseminando rapidamente. Chega com uma mensagem cuja linha de assunto é “Merry Christmas!” e oferece um suposto descanso de tela natalino em um arquivo anexo intitulado “Xmas.Scr”. Abri-lo instala o vírus que, na próxima vez que o micro é inicializado, roda um programa avisando que o micro está contaminado e propondo um jogo de perguntas e respostas que, se respondidas corretamente, levariam à descontaminação. Não levam. Vejam detalhes sobre o comportamento do vírus e informações sobre onde encontrar ferramentas para eliminá-lo no artigo de Matthew Broersma, em <http://zdnet.com.com/2100-1105_2-5134559.html?tag=zdfd.newsfeed>.
Pois é isso. Como eu disse, é chato ter que voltar a falar desse assunto logo no início do ano, mas as ameaças estão aí e convém se precaver. E repetir o mantra: nunca, jamais, em tempo algum, abra qualquer arquivo anexo de fonte desconhecida e confirme a fonte antes de abrir os de fonte supostamente conhecida. Não se esqueça que os desenvolvedores de vírus aprenderam a incluir na linha “remetente” nomes colhidos ao acaso nos catálogos de endereços das máquinas infectadas, portanto aquela mensagem aparentemente mais que confiável por ter sido enviada pela respeitabilíssima senhora sua mãe pode ser, na verdade, portadora de um verme enviado através de um proxy aberto por um biltre que se aproveitou da identidade da pobre senhora para enganá-lo.
Triste mundo este em que sou obrigado a recomendar a meus leitores que tomem cuidado até com as mensagens em cuja linha de remetente consta o nome da própria mãe...

B. Piropo