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B. Piropo
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01/08/2005
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um no-break profissional
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Quando comecei a série de colunas sobre o funcionamento interno dos computadores os leitores que preferiam que eu continuasse a escrever sobre tecnologia de ponta reclamaram. E eu, adaptando o velho bordão “o freguês tem sempre razão”, entendi como válida a reclamação e prometi interromper de quando em vez a série para escrever sobre outros temas. Esta é a primeira dessas interrupções e vai abordar minhas impressões sobre um produto, o UPS Solis 1.0 da Microsol, que venho usando continuamente há dois meses.

Chamo de “minhas impressões” porque não me atreveria a fazer uma análise de produto, faina que está além de minha competência e situa-se na esfera dos mestres do hardware como Paulo Couto, Abel Alves ou Laércio Vasconcelos, fora todos os demais que minha claudicante memória me fez omitir e aos quais já vou pedindo desculpas adiantadas pelo esquecimento. Mas então, se admito a falta de competência, por que cargas d’água me meto a falar sobre produtos?

Bem, é que tenho uma velha dívida de gratidão com a Microsol, uma indústria cearense de hardware. Que fabricou meu primeiro drive de disquete instalado há quase duas décadas.

Acontece que meu primeiro computador foi um MSX da Gradiente cujo dispositivo de armazenamento padrão era fita cassete, algo inimaginavelmente lento até mesmo para os padrões de 1986. E que, por isso mesmo, meu primeiro opcional foi um drive de disquete. Um único drive através do qual eu carregava o sistema operacional, os programas e onde gravava os arquivos que criava. Um negócio que logo revelou-se desastroso: volta e meia eu esquecia de trocar o disquete dos programas pelo destinado aos dados e administrar a balbúrdia que isso causava não era fácil. Resultado: decidi comprar um segundo drive de disquete e instalá-lo eu mesmo. E é aí que entra a Microsol.

Convém notar que até então computador para mim era uma máquina cabalística, cujo conhecimento só era dado a poucos intelectos superiores. Abrir um negócio daqueles exigia coragem inaudita e absoluto desprezo pelo perigo. Para configurar o novo acionador como “drive B” era necessário remover de seu soquete uma peça plástica com alguns contatos metálicos. Eu nunca tinha visto um soquete na minha vida e nem sabia como manejá-lo. Mas o manual mandava remover a peça. Removi limando-a cuidadosamente que ela desaparecesse de cima do soquete (as coisas que a ignorância nos faz perpetrar...). Mas, com a ajuda do manual e de um ou dois telefonemas ao suporte da Microsol, no Ceará (hoje mais fácil, com seu telefone 0800) a tarefa foi cumprida. O que me convenceu que o mistério era menor do que parecia, me levou a novas aventuras que afinal me deram o conhecimento necessário para me meter a escrever essas bobagens que hoje escrevo sobre computadores. Portanto, se vocês gostam do que escrevo, agradeçam a Microsol, que me levou a praticar os primeiros passos. Se não gostam, atribuam os defeitos exclusivamente a mim, que a carga é demasiado pesada mesmo para a Microsol, hoje vinte anos mais velha e mais experiente. Agora, explicada a razão de minha dívida de gratidão e antes que a introdução fique maior que a coluna, vamos ao que interessa: o UPS Solis 1.0, mostrado na Figura 1.

Figura 1: Aspecto externo do Solis 1.0

UPS é a sigla de “Uninterruptible Power Suply”, ou fonte de energia ininterrupta, aquilo que costumamos chamar de “no-break”, um dispositivo que garante alimentação aos equipamentos a ele conectado quando “falta energia”, ou seja, quando o fornecimento pela rede pública é interrompido.

Examinada superficialmente a coisa parece muito simples: basta uma bateria. Quando a energia vem da rede pública, a bateria fica “na dela”. Quando o fornecimento é interrompido, a bateria entra em ação suprindo a demanda.

A idéia básica é mesmo mais ou menos essa. Mas há diversos complicadores, começando pelo fato da rede pública fornecer corrente alternada diretamente ao computador enquanto uma bateria só é capaz de fornecer a energia por ela armazenada sob a forma de corrente contínua. Para contornar esse problema, a bateria é ligada à rede elétrica através de um circuito capaz de mantê-la sempre carregada, tipicamente usado nos “carregadores de bateria”. Já a ligação entre a bateria e o computador é feita através de um circuito muito mais complexo, capaz de converter a corrente contínua fornecida pela bateria em corrente alternada a ser consumida pelo computador e rigorosamente dentro dos padrões. O Solis 1.0 faz isso através de um circuito eletrônico que utiliza microprocessadores RISC, capaz de produzir uma corrente alternada em forma de onda senoidal (ao contrário das ondas “quadradas” ou “dente de serra” produzidas pelos concorrentes mais baratos), filtrada, estabilizada e protegida contra sobrecarga e surtos (picos de tensão), resistindo até mesmo a curtos-circuitos na saída sem sofrer danos ou danificar os equipamentos a ele conectados. Ou seja: além de cumprir seu papel de suprir energia durante as interrupções da rede elétrica, ele o faz de modo a dispensar o uso de um estabilizador de tensão. E como seu transformador de entrada é isolado, evita a propagação de eventuais distúrbios da rede para o interior da unidade (e, portanto, para o computador e demais dispositivos a ele ligados).

Figura 2: Circuitos internos do Solis 1.0

Os no-breaks comuns se limitam a garantir o fornecimento de energia por um certo período, após o qual, esgotada a carga da bateria, cessam de alimentar os dispositivos a eles ligados, gerando os mesmos efeitos da interrupção causada pela falta de energia da rede. As unidades modernas (chamadas de “inteligentes”) se comunicam com o computador geralmente através de uma das portas seriais, e monitoram o nível da carga da bateria. Quando esta cai abaixo de um determinado limite, o sistema operacional é desligado ordenadamente, ou seja, todos os aplicativos são fechados, os arquivos eventualmente abertos são gravados em disco, o sistema é encerrado e o micro é desligado. O Solis 1.0 é um no-break inteligente. Tão inteligente que vai um passo além: dispensa o ajuste da tensão da rede pública (é capaz de detectar automaticamente se a rede é de 110V ou 220V e se ajusta de acordo), quando detecta que não há consumo, ou seja, que todos os dispositivos a ele conectados foram desligados, “percebe” que seus serviços não são mais necessários e desliga-se a si mesmo para poupar energia (que, do contrário, continuaria a ser consumida pelos circuitos internos) e permite ainda programar antecipadamente o desligamento ordenado.

A linha Solis, voltada para uso profissional, inclui modelos com potência máxima de 1.000 VoltAmperes (700 Watts de potência útil), 1.500 VA (1.050W), 2.000 VA (1.400W) e 3.000 VA (2.100W). O Solis 1.0 é o menor deles. Aceita tensão de entrada nominal de 110V a 220V (mas é capaz de carregar suas baterias com a tensão de entrada variando entre 90V e 140V nas redes nominais de 110V e com variação de 180V a 250V nas redes nominais de 220V), freqüência de 60 ciclos/segundo (aceitando uma variação de +/- 5% na entrada), distorção harmônica total menor que 5%. É absolutamente silencioso (nível de ruído audível menor que 55 db) e usa quatro baterias seladas de 12V com capacidade de fornecer 7Ah. Suas dimensões e peso são compatíveis com a capacidade: mede 24,5cm x 17,5cm x 45 cm e pesa a bagatela de 26 kg. Em compensação garante uma autonomia de funcionamento de 1h 20min a um PC a ele ligado mesmo que falte energia na rede pública.    

A vantagem dos no-breaks “inteligentes” é que, além de monitorarem a si mesmos e à rede pública, permitem que o usuário acompanhe este monitoramento. Mas para isso é preciso um programa. O que acompanha o Solis   1.0 é o Solis Monitor, que fornece todas as informações necessárias para um completo acompanhamento tanto em tempo real quanto a posteriori (através do exame dos relatórios de dados que o programa armazena) das condições tanto da rede elétrica quanto do sistema abastecido pelo Solis.

Figura 3: Tela com dados da rede pública

Após configurado e de acordo com as necessidades do usuário, o programa pode exibir uma razoável quantidade de dados em tempo real. A Figura 1 (que, como as demais, foram obtidas do programa rodando nesta máquina que vos fala) mostra os dados da rede pública, ou os dados de entrada. O gráfico da esquerda mostra a variação da tensão, cujo valor instantâneo (125V) é exibido no pé do gráfico, juntamente com os valores da corrente fornecida (2,9A) e da freqüência da rede (exatos 60 Hz). Na extremidade direita aparece o gráfico da temperatura interna do Solis e no canto inferior direito um conjunto de informações que, naquele momento, dava conta que a bateria estava carregando, a rede pública estava fornecendo energia e a saída estava alimentada. No centro e à direita se vê o menu que permite optar pelas demais telas.

Figura 4: Tela com dados de saída

A Figura 4 mostra a tela com os dados da saída, ou seja, da alimentação fornecida aos equipamentos ligados ao Solis. Note que a corrente é ligeiramente menor (2,6A) devido ao consumo interno do próprio Solis, enquanto a tensão fornecida é muito próxima da tensão nominal da rede (115,2V contra 117V nominais).

Figura 5: Tela com dados da bateria

A Figura 5 mostra os dados da bateria do Solis, que no momento estava 100% carregada, com autonomia total e sob uma tensão de 27,3V.

Figura 6: Tela com dados de potência

A Figura 6 mostra os dados relativos à potência fornecida pelo Solis, que no momento da medição situava-se em 300 VA. Note que a tela mostra também o fator de potência (no momento, 0,78), o que reduz a potência útil para apenas 235W (falaremos mais sobre a importância do fator de potência em outra coluna).

Figura 7: Tela com gráficos em tempo real

A qualquer momento, seja qual for a tela exibida, pode-se solicitar que o Solis Monitor exiba continuamente o gráfico da variação ao longo do tempo dos valores dos principais parâmetros, conforme mostra a Figura 7. Cada linha corresponde a um dos parâmetros listados na legenda. Perceba que apesar da razoável variação na potência consumida, refletida pela irregularidade da linha amarela no topo do gráfico, a tensão de saída praticamente não variou ao longo do tempo.

As janelas do Solis Monitor ocupam um bom espaço da área de trabalho. Caso se pretenda reduzir este espaço, pode-se optar por minimizar a janela. Nesse caso ela mostrará apenas os dados essenciais.

Figura 8: Janela reduzida com dados de entrada

A Figura 8 mostra a janela reduzida exibindo os dados de saída, circunscritos à tensão fornecida e aos ícones da extremidade esquerda que indicam que o dispositivo está ligado, fornecendo energia e com a bateria completamente carregada. No meu entender seria interessante que, além de reduzir a janela (que, no entanto, continua a consumir espaço na área de trabalho), o Solis Monitor ensejasse a possibilidade de reduzi-la a um ícone na área de notificação (aquele conjunto de ícones que aparece na extremidade direita da barra de tarefas). Quem sabe na próxima versão?

Finalmente: do ponto de vista profissional, talvez a característica mais interessante do Solis Monitor seja o fato de permitir o monitoramento e gerenciamento (inclusive desligamento ordenado) do sistema através da rede, usando o protocolo TCP/IP. Isto significa que de qualquer lugar onde se tenha acesso à Internet, e desde que se disponha da devida senha, o administrador do sistema tem acesso a todos os dados exibidos nas telas acima e pode efetuar a programação de eventos, como o desligamento ordenado no final da carga das baterias ou em qualquer tempo no horário programado.

Durante esses dois meses em que tenho usado o Solis 1.0 a rede pública se comportou razoavelmente, mantendo a alimentação do sistema. Para testar o Solis tive que provocar uma interrupção na alimentação desligando o disjuntor da rede. O Solis agüentou o tranco perfeitamente e eu continuei usando o micro por mais de uma hora até religar o disjuntor.

Cabra danado esse no-break do Ceará...

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B. Piropo


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