Escritos
B. Piropo
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< Coluna em ForumPCs >
Volte de onde veio
26/12/2005
< Mudando de Ano I >


Vamos interromper um pouco a série sobre computadores. Afinal, a Coluna do B.Piropo no FórumPCs é sobre tecnologia em geral e não apenas sobre computadores. E há diversas maneiras de se falar de tecnologia. Desde o jeito formal e vetusto dos livros acadêmicos até o papo descontraído de botequim. Pois a coluna de hoje é a primeira parte (não se assuste, são apenas duas) de uma pequena história. O pano de fundo é a evolução tecnológica. Talvez o nome tenha lhe sugerido algo diferente do que você encontrará nela. Mas lembre-se que mudar de ano não significa apenas mudar de 2005 para 2006. Pode-se mudar, pelo menos em imaginação, para um ano um pouco mais distante, uma ou duas décadas adiante. E imaginar como será nossa vida neste ano. Sobretudo, imaginar como a tecnologia de então afetará as ações singelas de nossa vida diária como tomar banho, barbear-se, ir a festas. Pois bem: tudo o que você lerá a seguir será possível dentro de alguns anos. E a razão que me faz garantir isso é muito simples: todas as tecnologias usadas nos aparelhos, utensílios e máquinas citados já existem hoje em dia. Se não foram ainda aplicadas para permitirem o uso na forma mencionada é meramente devido a circunstâncias: algumas necessitam um certo aperfeiçoamento que hoje ainda é objeto de pesquisas. Outras precisam de um pouco mais de miniaturização. Outras ainda já estão prontas para uso, mas ou ainda são muito caras para produção em massa ou não foram implementadas por questões legais, defesa da privacidade ou algum outro entrave específico. Mas nenhuma é “sonho futurista” ou delírio tecnológico. Todas são perfeitamente realizáveis com o nível de conhecimento científico atual. Tanto é assim que, de todos os fatos que vocês lerão nesta e na próxima coluna, apenas um é inverossímil, improvável, difícil de acontecer conforme descrito.
Leia as duas colunas, se tiver paciência para tanto, e diga-me qual é essa única exceção.

O homem levantou-se mal disposto e mal dormido. Dinheiro pouco, trabalho escasso, vida dura. Há semanas não conseguia um bom caso. Caminhou trôpego até o banheiro, despiu-se, entrou no chuveiro. Não estava a fim de companhia, nem virtual. Durante o banho não queria mais que apreciar uma paisagem. Disse em voz alta e clara:
- Cachoeira; Nova Zelândia; Sozinho.
As placas de polímero orgânico das paredes do box bruxulearam, entraram em foco rapidamente e mostraram as montanhas da Nova Zelândia. A água começou a jorrar sobre ele, abundante e tépida. Olhou em volta e gostou do que viu: atrás, uma laje de pedra de onde escorria uma cachoeira cercada por uma floresta viçosa que se espalhava pelos lados. Em frente, uma vista ampla das faldas da montanha, no início alcantiladas, depois descendo suavemente até o mar alguns quilômetros adiante. De alto-falantes ocultos ouvia-se canto de pássaros, coaxar de sapos, ruídos típicos da floresta. Um pássaro começou a trinar alto demais. Disse: “Mais baixo” e a Máquina abafou os ruídos. Ele precisava pensar. Era preciso defender algum para o aluguel que vencia no final da semana e tinha que descobrir como.
Saiu do box absorto em pensamentos, viu a paisagem desaparecer detrás de si, ficou imóvel alguns segundos enquanto o jato de ar quente secava seu corpo e foi até a pia barbear-se. Olhou para a tela na parede em frente e horrorizou-se com a imagem em alta definição de seu rosto mostrada na tela sobre a pia, capturada pela câmara de vídeo embutida na moldura. A noite mal dormida deixara vestígios. Olheiras profundas marcavam seus olhos, o rosto amassado pela noite mal dormido estava assustador. Disse: “melhorar a cara”. A Máquina entrou em ação, retocou sua imagem, as rugas se suavizaram, as olheiras desapareceram e ele começou a se barbear. Notou que havia uma mancha acima de sua sobrancelha direita e fixou o olhar nela. Isso bastou para que a Máquina ampliasse a imagem naquele ponto. Ele examinou a mancha com atenção e percebeu que era apenas um sinal, nada que valesse a pena comunicar ao médico. Mesmo porque não precisaria: se fosse grave, a própria Máquina já teria se encarregado de anotar em seu prontuário e avisaria à clínica que costumava atendê-lo. Além disso, ele sabia que, fora a ressaca, não tinha problemas de saúde já que nenhum alarme soara enquanto os sensores varriam seu corpo em busca de caroços ou sinais comprometedores, mediam sua altura e peso e enviavam os dados para a Máquina durante o banho. E pouco antes, o vaso sanitário o havia informado que tanto a urina quanto as fezes estavam normais, recomendando apenas que ele reduzisse o consumo de açúcar, álcool e gordura. Ele sempre se sentia constrangido quando conversava com o vaso, mas tinha que admitir: os exames eram úteis.
Precisava saber se havia algo urgente esperando no escritório. E mesmo nu e despenteado comandou:

- Formal; Escritório; Juliana.
Sua imagem na tela foi substituída pela de sua secretária Juliana. Ela, por sua vez, via o chefe vestido formalmente, penteado e barbeado. Coisas da Máquina, que não somente permitia a comunicação como cuidava das aparências.
- Oi, menina, alguma novidade?
- Não chefe, por enquanto nada – retrucou a moça com um ar meio preocupado de quem sabia das dificuldades financeiras do homem.
- Bom. Saio de casa em dez minutos, vou para aí, chego em meia hora. Se me procurarem, peça para aguardar. Até já.

Juliana se despediu, a Máquina percebeu que a conversa se encerrara e interrompeu a comunicação.
Barba feita, o homem foi para o quarto, escolheu um fato ao acaso e o vestiu.
“Fato”, palavra provavelmente derivada do português falado em Portugal, era o nome do tipo de roupa que dominava o mercado nos últimos anos: uma espécie de macacão folgado, completamente fechado nos punhos, tornozelos e pescoço. No começo houve protestos, principalmente das mulheres que acharam aquilo um atentado contra a vaidade. Mas as vantagens eram grandes demais para serem desprezadas. Para satisfazer os mais vaidosos as fábricas acabaram produzindo um material revestido de minúsculas células refletoras cuja cor variava de acordo com a vontade do dono e da ocasião e dentro em pouco todos se vestiam assim. As fibras do tecido de que era feito o fato eram ligadas a bilhões de microscópicos processadores que, com a ajuda da Máquina, mantinham a temperatura e o teor de umidade em seu interior próximos dos valores ideais, usando energia suprida por células fotoelétricas espalhadas na superfície externa. Raramente era preciso drenar alguma energia adicional. E quando era, provinha de células de combustível que há cerca de uma década passaram a ser os únicos dispositivos para geração de eletricidade por serem baratos, simples, leves e não poluentes. O tecido era impermeável, não aderia a coisa alguma nem permitia que nada aderisse a ele, portanto jamais se sujava. Como as fibras eram de um polímero incrivelmente resistente, também não rasgava. Infelizmente não era a prova de bala: ele jamais esqueceria o dia em que foi alvejado por um mequetrefe a quem perseguia. O tiro perfurou-lhe o fato, provocando uma hemorragia que fez com que ele perdesse os sentidos. Teria sangrado até a morte se o próprio fato não detectasse o sangramento e disparasse o alarme no hospital através de sua permanente conexão com a Máquina, indicando onde ele se encontrava através do sistema de posicionamento global. A equipe de socorro chegou minutos depois, já com seu prontuário médico em mãos, tempo justo para salvar-lhe a vida. As mulheres acabaram aceitando os fatos depois que algumas transparências foram acrescentadas aqui e ali e adotadas cores menos sisudas. Hoje em dia raramente se via alguém sem seu fato. Exceto nos ambientes de imersão, naturalmente.
Ao sair de casa murmurou em voz alta para que a Máquina tomasse conhecimento que ele não voltaria imediatamente, ligasse os sensores de intrusos e ajustasse o sistema de mensagens:

- Se me procurarem fui ao escritório.

Sorriu, lembrando-se como soaria estranho se ele fizesse algo parecido há um par de décadas. Mas “falar sozinho” deixou de ser um procedimento bizarro desde que desapareceram os demais meios tradicionais de se comunicar com a Máquina, restando apenas a comunicação por voz. Hoje, não apenas era natural falar-se com as paredes e objetos como ninguém estranhava quando as paredes e objetos respondiam. Havia microfones, sensores e alto-falantes espalhados por toda parte, em todos os utensílios, todos ligados à Máquina, e a forma de se comunicar com eles era a linguagem natural.
O homem entrou no carro que já o esperava à porta. Era um veículo de dois lugares, modernoso mas já velho de um par de anos. Solteiro, não precisava de carro maior. Sem dinheiro, não podia comprar um mais novo. Mas aquele dava para o gasto. Sentou-se. O carro perguntou:

- Para onde, senhor?
- Escritório – disse ele.
- Pelo túnel ou pela superfície, senhor?

Há alguns anos foram abertos caminhos subterrâneos interligando praticamente todos os pontos da cidade. Eram conhecidos coletivamente como “o túnel”. Trafegava-se por eles muito rapidamente, mas o ambiente era lúgubre, sisudo, não havia paisagem. Perguntou ao carro:

- Como está o dia hoje?
- Ensolarado, senhor. Temperatura na casa dos vinte e cinco graus centígrados, senhor. Há previsão de chuvas intermitentes apenas para a tarde. A brisa de ontem limpou o ar, senhor. A visibilidade está excelente. Por onde vamos, senhor?

Ele não tinha pressa. Queria ler o jornal e acompanhar o noticiário durante a viagem e descansar o olhar admirando a paisagem de quando em vez não seria má idéia.

- Superfície – respondeu.

O carro se movimentou sozinho, lentamente, até a borda da pista. Esperou que três ou quatro veículos passassem e quando seus sensores indicaram que o caminho estaria livre nos próximos vinte segundos moveu-se rapidamente para a faixa de rolamento externa e acelerou até atingir uma velocidade um pouco menor que a dos veículos que seguiam na faixa à sua esquerda. Quando abriu-se um espaço suficiente entre eles, acelerou novamente e mudou de faixa. Fez isso quatro ou cinco vezes, sem que fosse preciso qualquer ação do homem. Tudo era controlado pelos sensores de distância e pelos controladores de velocidade embutidos no piso das pistas, todo o conjunto harmonizado pela Máquina. Ao atingir a faixa mais interna estabilizou a velocidade em pouco mais de cem quilômetros por hora, a velocidade máxima que a Máquina havia adotado para tráfego urbano. Os sensores do veículo o mantinham a uma distância segura tanto do que ia à sua frente quanto do que o seguia.
O homem não prestou qualquer atenção a essa movimentação. Sabia que a Máquina tomava conta de tudo. Há mais de dez anos não se ouvia falar em um acidente de trânsito. Acomodou-se no banco do carro, retirou a “folha” de um dos bolsos do fato e desdobrou-a até que ficasse aproximadamente do tamanho de um jornal formato tablóide.
A folha era um objeto parecido com as folhas de papel que se usavam no início do século e que tinham custado a derrubada de tantas florestas. Mais ou menos da mesma espessura, sua superfície recoberta com microscópicos pontos multicoloridos funcionava como uma tela flexível. Era um aperfeiçoamento dos diodos orgânicos emissores de luz (OLEDs) descobertos no início do século. Mas a folha era muito mais que uma tela. Seus milhões de microprocessadores estavam permanentemente conectados à Máquina. Sem fio, naturalmente: há pelo menos dez anos não se usavam fios para comunicações. Através desta conexão a folha podia exibir qualquer coisa, desde o noticiário da televisão até filmes, livros ou o jornal diário. E esse era o desejo do homem, que comandou:

- Jornal

A folha acionou a Máquina que enviou os dados, exibindo a primeira página do jornal preferido pelo homem que leu rapidamente as manchetes e quase imediatamente comandou com dois ou três toques rápidos dos dedos que fosse exibido o noticiário policial. Interesse profissional, naturalmente.
Nada viu que pudesse render algum dinheiro. Suspirou, dobrou novamente a folha, meteu-a no bolso, acomodou-se no banco, comandou “Música; Antiga; Baixa” e imediatamente o interior do carro foi invadido pelo som de um velho sucesso de Raul Seixas. Relaxou admirando a paisagem, na verdade o conjunto de magníficas torres de centenas de metros de altura separadas por vastas áreas planas e arborizadas em que a cidade havia se transformado na última década. Quando deu por si o carro já estava estacionado na porta do prédio de seu escritório e as portas abriram-se sozinhas para que ele descesse.
O elevador levou o homem em segundos ao qüinquagésimo andar. Caminhou até uma porta onde se lia “Investigações particulares. Sigilo absoluto”. Entrou. Juliana estava à sua espera. Ao lado dela um cavalheiro de fisionomia vagamente conhecida sorriu para ele. Era um indivíduo baixinho, meio rechonchudo, de óculos de aro grosso, bochechas excessivamente vermelhas, olhos meio lacrimejantes, cabelo começando a rarefazer-se nas têmporas, jeitão seboso, uma figura bastante desagradável. Em suma: um sujeitinho feio e de aspecto pouco atraente. Quem diabos seria aquele tipo?
Imediatamente a micro-câmara embutida na armação de seus óculos capturou a imagem do rosto do indivíduo e a enviou para a Máquina. Ele nunca deixou de se impressionar com a evolução da tecnologia de reconhecimento de fisionomias: em menos de um segundo o banco de dados universal foi consultado e a Máquina projetou na lente de seus óculos, de forma que apenas ele poderia ler, um breve relatório sobre o homem. Descobriu que seu nome era Mário, tinha 54 anos, era casado com Daniela, de 28 e que o havia conhecido juntamente com a mulher na noite da véspera, na festa de sua prima Júlia. Estendeu a mão para o homem e cumprimentou:

- Salve, Mário, que prazer em revê-lo. Como vai Daniela?
- Bem, espero. É justamente sobre ela que queria lhe falar.

“Oh, Deus, mais um caso de adultério!” pensou. Ele os detestava e costumava encaminhá-los a algum colega. Mas com o aluguel vencendo, fazer o que? Sorriu para Mário, pôs o braço sobre seu ombro e o empurrou amigavelmente para a porta entrecerrada nos fundos da sala de espera, dizendo:

- Ótimo, vamos para minha sala.

Com um gesto informou a Juliana que não queria ser incomodado e passou com Mário para a sala ao lado.

[FIM DA PRIMEIRA PARTE]

B. Piropo


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