Escritos
B. Piropo
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14/08/2006
< Analytical Engine IV: Tecendo idéias >

Uma observação dirigida aos que estão acompanhando esta série (e um pedido de desculpas): como vocês devem ter observado, esta coluna está atrasada uma semana. O atraso é injustificável, naturalmente. Mas pelo menos posso explicá-lo. Acontece que, na medida que ela ia sendo escrita, o assunto que eu inicialmente pretendia abordar em uma única coluna revelou-se demasiadamente extenso e teve que ser desdobrado em duas. Ocorre que, para evitar repetições e lacunas, tive que me estender bastante na segunda antes de publicar a primeira. E a segunda (a próxima a ser publicada) revelou-se especialmente trabalhosa por exigir, para melhor clareza, um conjunto de ilustrações que tiveram que ser (mal) feitas por este (péssimo) ilustrador que vos escreve (menos pior que, embora feias, as ilustrações ficaram claras, que é o que importa). Daí o atraso. Que, porém, tem seus lados positivos. O primeiro é que a próxima coluna será profusamente ilustrada com fotos, gráficos e desenhos que ajudarão a compreender o funcionamento da primeira máquina programável construída pelo homem. E o segundo é que, prometo, ela será publicada nos próximos dias, ainda esta semana, eliminando assim o atraso. Aos que estão acompanhando a coluna, agradeço pela paciência em esperar, reitero as desculpas pelo atraso e desejo um bom proveito da leitura. B. Piropo

Antes de prosseguir, algumas advertências.

Primeira: não, eu não abandonei a série “Analytical Engine”. Embora talvez não lhe pareça à princípio, lhe asseguro que esta coluna é a quarta da série.

Segunda: também garanto que esta não é uma coluna da coleção “Trabalhos manuais da Tia Zenóbia” que veio parar por engano aqui neste reduto da informática. Por menos que lhe pareça, a arte de tecer tem mais a ver com computadores (sobretudo com programação) do que pode supor nossa vã filosofia. Tenha um pouco de paciência e leia a coluna que logo entenderá o porquê desta afirmação aparentemente sem nexo.

Terceira: não, também não abandonei o velho Babbage e suas vicissitudes, trocando-o pelo francês Jacquard. Embora, tanto quanto me é dado saber, jamais tenham se conhecido pessoalmente, as vidas desses dois cavalheiros se entrelaçaram mais que a trama e a urdidura de um tecido.

Isto posto, vamos adiante.

Alguma vez você já se preocupou em saber como é fabricado o tecido de suas roupas? Já se deu conta que seu nome, “tecido”, é o particípio passado do verbo “tecer” justamente porque ele foi feito em uma máquina de tecer, ou um “tear”?

E o que é “tecer”? Como funciona um tear?

Bem, antes de tecer é preciso “fiar”. Um verbo que tem diversos significados (como o de “vender a crédito”). Inclusive um tão antigo que nem ao menos consta na edição eletrônica do Dicionário Houaiss (embora seja nele mencionado por exemplo na acepção do verbete “fiandeiro” e na etimologia do verbete “fiandeira”, aqueles que fiam). Pois fiar também significa “fazer fio”, no sentido de enrolar fibras (como as de algodão, linho ou lã) em um fio, linha ou cordão usado para tecer. Antigamente fiava-se com uma “roca” ou “roda de fiar”, uma trapizonga curiosa acionada por um pedal ou manivela onde se enrolava a linha ou cordão que a fiandeira laboriosamente torcia com uma segunda peça, o “fuso”, feito especialmente para a roca – de onde veio o velho provérbio “cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso”. Veja na Figura 1 um desenho obtido no Sítio < http://fibers.destinyslobster.com/Spinning/spinpics.htm > “Anne Liese's Fibers and Stuff” que mostra um grupo de jovens fiandeiras medievais usando uma roca para fiar (e aproveitando para trocar um pouco de conversa fiada, mas isso é outra história).

Figura 1: Roca de fiar.

Bem, obtido o fio, é preciso entremeá-lo para formar o tecido. Uma técnica aprendida pelo homem nos tempos imemoriais dos primórdios da civilização.

Todo tecido é constituído por fios longitudinais, que em conjunto são chamados de “urdidura” (“warp”, em inglês) atravessados por fios transversais, denominados “trama” (ou “weft”, em inglês). Tecer significa essencialmente entrelaçar a trama na urdidura. E como isto pode ser feito?

Bem, repare no lado esquerdo da Figura 2 (cujas duas primeiras ilustrações foram obtidas no Sítio
< http://www.historyforkids.org/learn/clothing/weaving.htm > “Kidipede” e a terceira no sítio
< http://www.izumiinternational.com/carbon/we_ynfr_example.html > da “Izumi International”)
a imagem de uma estrutura simples de madeira onde se prendeu um fio formando linhas paralelas longitudinais. Este conjunto de linhas longitudinais constituirá a urdidura. Para se obter o tecido basta entremear um conjunto de linhas transversais que passam alternativamente acima e abaixo de cada fio da urdidura, como mostrado com a linha rosa da imagem central da Figura 2. Estas linhas transversais constituem a trama. Com um pouco de imaginação percebe-se que “apertando” as linhas da trama umas contra as outras acaba-se com um pedaço de tecido, mesmo tosco, como o que aparece na imagem da direita da Figura 2. Foi assim que o homem aprendeu a tecer no início dos tempos.

Figura 2: Urdidura e trama.

É claro que ao longo dos anos o homem concebeu tessituras (ou “texturas”) mais complexas, como as mostradas esquematicamente na Figura 3, onde o entrelaçamento entre a trama e a urdidura, embora mantenha sua regularidade e simetria, não é tão simples como o singelo “por cima / por baixo” mostrado na tessitura simples da imagem da esquerda da Figura 3
(cujas imagens foram obtidas no Sítio < http://www.wovenwire.com/reference/weave2.htm > “WowenWire”).

Figura 3: Diferentes tessituras (ou texturas).

 Evidentemente logo se percebeu que uma tarefa repetitiva como a tecelagem (o nome que se dá ao ato de tecer ou ao ofício de quem tece, o tecelão) poderia ser grandemente facilitada com o auxílio de artefatos mecânicos. E, da estrutura primitiva mostrada na Figura 2, os teares evoluíram para dispositivos muito mais elaborados como o mostrado na Figura 3, cujas imagens foram obtidas no sítio da < http://utahalpacas.com/alpaca-products.htm > “Alpaca Products”.

Figura 4: Tear manual.

Como funcionaria uma trapizonga dessas? Primeiro repare na extremidade da direita: enrolado sobre a haste de madeira horizontal jaz o tecido pronto. Veja como ele é formado por fios paralelos que, na figura, se estendem da esquerda para a direita (a urdidura) entremeados por outros fios que na imagem se estendem de baixo para cima (a trama). Repare que a partir do ponto em que o tecido “acaba”, vê-se apenas os fios paralelos que formam a urdidura. Em cima de tudo isto há duas “lançadeiras”, umas peças de madeira pontiagudas nas quais um trecho de fio está enrolado. Elas servem para entrelaçar a trama na urdidura. Preste atenção nas quatro réguas paralelas de madeira situadas do lado esquerdo do tear, acima do tecido. Não dá para perceber muito claramente na figura, mas de cada uma delas parte um conjunto de fios verticais com ganchos que se prendem em alguns dos fios da urdidura. Quando se levanta uma destas réguas, os fios da urdidura aos quais ela está ligada se levantam, abrindo a trama em forma de “>”.

Esta ação pode ser percebida mais claramente no tear semi-industrial mostrado na Figura 5, uma mulher tecendo seda (modificada de um original obtido no Sítio de
< http://www.travelingtiger.com/travelingtiger/silk_weaving/weaving_index.htm > “Tien Chiu”).
Note, no detalhe ampliado, como alguns dos fios da urdidura foram puxados para cima enquanto os demais permaneceram em baixo, na posição original, como indicado no esquema acima do detalhe. Isto abre espaço para que a trama seja introduzida na abertura em “>” entre estas duas camadas de fio. No tear artesanal da Figura 4 a trama é introduzida manualmente com a ajuda das lançadeiras de madeira nela mostradas: desenrola-se um pouco do fio da lançadeira e faz-se com que ela passe na abertura em “>”. No tear semi-industrial da Figura 5 isto é feito por uma lançadeira mecânica que passa entre as duas camadas de fios da urdidura.

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Figura 5: movimento dos fios da urdidura.

Repare, no tear da Figura 5, que em frente às mãos da tecelã há duas barras de madeira horizontais das quais pendem alguns fios verticais. Cada um destes fios tem um gancho em sua extremidade inferior, preso a um dos fios da urdidura. Os ganchos pendentes de cada barra horizontal prendem-se a fios alternados da urdidura. Uma das barras tem seus fios verticais presos a “fio-sim / fio-não” (horizontais) da urdidura. A outra barra tem seus ganchos presos a “fio-não / fio-sim” da urdidura. Desta forma, quando se levanta uma das barras, a outra se abaixa (o que pode ser percebido pelas cordas que sustentam as barras horizontais e se enrolam no eixo cilíndrico de madeira acima das barras; ao mover uma barra para baixo o eixo gira e levanta a outra). Desta forma alguns fios da urdidura são levantados, a trama é enfiada logo abaixo, entre eles e os que permaneceram abaixados, e em seguida os fios alternados são levantados, fazendo com que a urdidura “abrace” cada fio da trama.

Pois é assim que se tece: abrindo os fios da urdidura, passando a trama entre eles, fechando-os, apertando a trama “para trás” e abrindo novamente a urdidura no sentido oposto, repetindo o processo fio a fio da trama. Uma coisa tediosa, repetitiva, porém muito simples quando tudo o que se tem que tecer é “pano”, um tecido onde todos os fios da trama são da mesma cor e a tessitura é singela e se repete a cada fio da trama.

Evidentemente, para tecer grandes quantidades ou produzir tecidos de grandes dimensões, usavam-se máquinas maiores e mais complexas como as mostradas na Figura 6, cujas imagens foram obtidas nos sítios da < http://etc.usf.edu/clipart/7700/7750/loom_7750.htm > “Educational Technology Clearinghouse” (a da esquerda) e < http://www.deutsches-museum.de/ausstell/meister/e_web.htm > “Deutsches Museum” (a da direita).

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Figura 6: Teares manuais antigos.

Mas como fazer quando se deseja tecer um trabalho mais elaborado, com figuras complexas onde o entrelaçamento entre trama e urdidura gera formas intrincadas como as obras de arte em tapeçaria criadas por Sigrid Piroch, cujas imagens foram obtidas em seu < http://www.artsstudio.org/index.htm > Sítio e exibidas na Figura 7?

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Figura 7: Tapeçarias de Sigrid Piroch.

Ou quando se deseja tecer obras complexas como as mostradas na Figura 8, peças mantidas no “Berlin Technological Museum” (repare as datas estampadas nos trabalhos) com fotos de < http://www.sscnet.ucla.edu/geog/gessler/topics/jacquard.htm > Nicholas Gessler?

Figura 8: Tapeçaria antiga.

Bem, neste caso a coisa complica. Tessituras elaboradas eram feitas em dispositivos do tipo “draw loom” (mal traduzindo, “teares de tração”) operados por dois indivíduos, o tecelão (“weaver”) e o “draw boy”.

O tecelão era o artesão, o responsável pela parte artística ou intelectual do trabalho: a ele cabia fazer passar a trama pelos intervalos exatos da urdidura, de tal forma que os trechos aparentes de cada fio da trama se combinassem com os trechos dos demais fios, desenhando a tessitura desejada. Para conseguir este efeito, para cada fio da trama a ser entremeado, ele prendia cada um dos fios da urdidura a serem levantados em ganchos que pendiam de um segundo conjunto de fios verticais presos a uma barra horizontal acima do tear. A ele cabia escolher, um por um, os fios da urdidura que seriam levantados (para que a trama passasse por baixo deles) e os que permaneceriam abaixados (fazendo a trama passar por cima deles) a cada novo fio de trama a ser entremeado.

Depois que todos os fios da urdidura a serem levantados eram presos a seus ganchos pelo tecelão, este sinalizava ao “draw boy”, empoleirado sobre o tear, a quem cabia apenas efetuar o trabalho braçal: mover para cima (“to draw up”) manualmente a barra de onde pendiam os ganchos que levantavam alguns dos fios da urdidura para que o tecelão pudesse passar por baixo deles o fio da trama.

Para que se tenha uma idéia da dificuldade do trabalho, segundo relatos da época, quando se tecia seda, o mais nobre dos tecidos, e a tessitura era complexa, um tecelão experiente ajudado por um “draw boy” expedito podia adicionar dois fios de trama por minuto, o que corresponde aproximadamente a 12,5 centímetros quadrados de seda tecida por dia.

O problema é que enquanto o tecelão executava sua arte, o “draw boy” fazia um trabalho repetitivo, cansativo, insalubre, monótono, braçal e, sobretudo, burro. Nos idos do século dezoito, quando a exploração do trabalhador atingiu seu auge e quando, em não se sendo nobre ou burguês, era-se obrigado a trabalhar duro desde tenra idade, a função de “draw boy”, como o nome indica, era exercida principalmente por crianças ou adolescentes não somente por exigir pouca perícia mas, sobretudo, porque o “draw boy” tinha que permanecer na parte superior do tear para levantar as barras e a frágil estrutura de madeira dos teares antigos não suportaria o peso de adultos. “Draw boys” trabalhavam de seis a oito horas por dia, em condições de trabalho insalubres devido à posição em que eram obrigados a permanecer, levantando seguidamente barras que, juntamente com os fios de urdidura que suportavam, pesavam mais de quinze quilogramas. Muitos deles terminavam portando deficiências resultantes de lesões de esforço repetitivo (LER) ainda crianças.

É aí que entra Joseph Marie Jacquard.

Jacquard nasceu em Lyon, na época centro tradicional de tecelagem fina, no ano de 1752. Seu pai era o dono de uma tecelagem com diversos teares, inclusive alguns destinado a trabalhar com seda, mais difícil de tecer devido à pequena espessura dos fios e que resultava nas tessituras mais sofisticadas, trabalhosas e caras, as preferidas pelas classes favorecidas. Sua mãe concebia os intrincados desenhos dos tecidos mais elaborados.

Joseph Marie era “draw boy” e, naturalmente, odiava seu trabalho. Sabia que aquela atividade monótona e estúpida poderia ser executada por uma máquina. E dedicou sua vida a descobrir como fazê-lo.

As conseqüências disso veremos na próxima coluna.

Coluna anterior: < http://www.forumpcs.com.br/viewtopic.php?t=181171 > Analytical Engine III: A Epopéia

Próxima coluna: Em breve.

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