Escritos
B. Piropo
Internet:
< Coluna em ForumPCs >
Volte de onde veio
07/04/2008
< Pequenos provedores >

Sou um cara tipo “no meu tempo não tinha”.

Por exemplo: no meu tempo não tinha telefone celular. Nem microcomputadores (para falar a verdade, quando eu nasci, não os havia nem micro, nem mini nem macro; simplesmente não existiam e quando surgiram, alguns anos depois, eram chamados de “cérebros eletrônicos”).

No meu tempo não tinha CD. Pior: nem mesmo disco de vinil (havia discos, é verdade, mas eram uns trambolhos feitos de um plástico pesado e quebradiço que, se a memória não me trai, se chamava “galalite” ou coisa parecida e “tocavam” em vitrolas girando a 78 RPM). E, para supremo espanto das novas gerações, no meu tempo não havia sequer televisão. O grande entretenimento era o rádio, onde se ouviam novelas, programas humorísticos, noticiários e atualidades. Eu já era adolescente quando apareceram os primeiros aparelhos de TV em preto e branco, trambolhos enormes exibidos com orgulho na sala dos poucos privilegiados que os podiam comprar – o que criou a curiosa instituição dos “televizinhos”, amigos que não tinham televisão e se reuniam na casa dos mais abastados para assistir os programas de maior audiência.

Os mais jovens hão de achar que a vida naquelas priscas eras deveria ser muito vazia, insípida, sem graça, carente de meios de entretenimento e difusão cultural. Que nada. Pois mesmo naqueles dias de antanho já existia um dispositivo notável que, por ser portátil, se podia levar para qualquer parte, não precisava ser ligado a uma tomada nem usava pilhas e, apesar disso, continha um imenso, inexcedível, variado e inesgotável suprimento de diversão, cultura, informação e conhecimentos em geral. Ainda existem hoje alguns exemplares, mas as novas gerações deixaram que caísse praticamente em desuso. Procure em sua casa que provavelmente encontrará um deles, empoeirado, no fundo de alguma prateleira. Chama-se “livro”. Experimente. Garanto que, depois de um período inicial de acomodação com um tipo de interface obsoleta que exige intervenção humana para “virar” as páginas, logo perceberá seus encantos.

Mas voltemos ao que interessa: no meu tempo, não havia Internet.

Havia, é verdade, um simulacro dela. Pois no final dos anos oitenta do século passado, com a difusão dos computadores pessoais e o aparecimento dos modems, começaram a surgir os “BBS” ou “quadros de avisos eletrônicos”.

BBS são as iniciais de “Bulletin Board System”, um nome tão estranho quanto pouco apropriado. “Bulletin Board” é o nome em inglês desses “quadros de avisos” que existem na entrada de clubes e associações contendo notícias de interesse para todos os membros. Uma mensagem ali afixada pode ser lida por qualquer pessoa que tenha acesso ao quadro de avisos. Mas os BBS tinham pouco a ver com quadros de avisos.

Um BBS era uma instituição curiosa por sua própria natureza. Especialmente se compararmos o retorno financeiro que propiciavam com a quantidade de esforço, investimento e despesas de custeio exigidos para sua manutenção.

Era assim: um indivíduo investia uma boa grana comprando um computador pessoal para funcionar como servidor dedicado ao BBS (lembre-se: anos 80, reserva de mercado, computadores caros...), certo número de linhas telefônicas (de novo: anos 80, monopólio estatal das telecomunicações, linhas telefônicas raras e, por isso mesmo, caríssimas; comprei uma na época por alguns milhares de dólares) e o mesmo número de modems (que, por serem novidade, não eram baratos). Depois, montava toda esta trapizonga (para desespero da família, geralmente em casa, na maior parte das vezes no quarto de empregada) e punha tudo isto à disposição de um grupo de pessoas que poderiam ter acesso ao servidor para trocar arquivos e mensagens. E, para desespero ainda maior da família, dedicava praticamente cada minuto do seu tempo livre para manter toda esta parafernália funcionando.

E quanto cobrava dos usuários?

Nada.

Retorno financeiro? Zero.

Deu para entender? Se não deu, não se espante. Para dar, era preciso conhecer um BBS.

Como para participar do BBS devia-se cadastrar dados pessoais e obter uma senha, só havia participantes convidados. Portanto eram todos amigos ou amigos dos amigos (naquele tempo esta expressão não tinha qualquer conotação perniciosa e significava exatamente o que parece: pessoas que eram amigas dos seus amigos). Que, como eu disse antes, podiam trocar mensagens e arquivos.

Os arquivos eram, geralmente, de programas. Os BBS sérios se limitavam a oferecer programas desenvolvidos por seus membros ou gratuitos (“freeware” ou “shareware”). Nos menos sérios havia de tudo, inclusive programas piratas, mas esta não era a regra, era a exceção.  Porém o que mais atraía os usuários não eram os programas, mas as mensagens.

Havia mensagens de dois tipos: privadas e públicas. Uma mensagem privada era acessível apenas a seu destinatário e não tinha muita graça (geralmente eram trocadas apenas para esclarecer mal-entendidos). Mensagens públicas ficavam disponíveis a todos os membros (e é daí que vinha o nome de “quadro de avisos eletrônico”). E era nelas que morava o grande “barato”.

Porque, graças a certas peculiaridades da natureza humana, fosse qual fosse o teor de qualquer mensagem pública postada no BBS, havia quem concordasse com ela e quem discordasse. E logo começava uma linha de discussão (ou “thread”) sobre aquele tema. Volta e meia o pau quebrava, é fato, e o moderador (na verdade o dono daquilo tudo) tinha que intervir e, eventualmente, banir algum participante mais inconveniente. Mas em geral o que se tinha era um meio onde imperava a cordialidade e os assuntos mais estrambóticos eram discutidos em um nível geralmente elevado (é inacreditável como se podia encontrar em qualquer BBS especialistas nos assuntos mais esotéricos). E, quase sempre, muito amistoso.

Muitas das amizades que me orgulho de manter ainda hoje nasceram da troca de mensagens em BBS e, sobretudo, dos encontros que os membros promoviam regularmente e onde se tinha o prazer de conhecer pessoalmente figuras das quais já se era amigo há meses sem jamais ter tido o prazer de um aperto de mão.

Quer dizer: os BBS foram, em sua época, uma versão reduzida e mais genérica dos fóruns da Internet e dos sítios “sociais” como orkutes e similares. Mas eram uma coisa muito mais íntima, pessoal e, sobretudo, infinitamente mais cordial.

O que levava uma pessoa a gastar uma grana preta para montar um BBS, investir nele quase todo seu tempo livre para não obter qualquer retorno financeiro? Para ser sincero, nunca entendi isso direito. Mas os que conheci eram gente muito especial, figuras emblemáticas como Sérgio Mascarenhas, Charles Miranda e o saudoso Eduardo Hadad Filho. E alguns se tornaram amigos com os quais até hoje convivo e cuja amizade muito me orgulha, como Julio Botelho e Aleksandar Mandic.

Mas por que eu teria me lembrado hoje dos BBS?

É que lá pelo ano de 1995 a Internet, que até então era um nicho exclusivo de acadêmicos e especialistas, abriu-se para o público em geral.

E matou os BBS.

As razões disso são fáceis de entender e não vale a pena perder tempo discutindo-as. Mas o fato é que, com o advento da rede mundial, os BBS ou desapareceram ou se transformaram em meros provedores de Internet.

Pequenos provedores, naturalmente.

O do Julio Botelho virou o provedor Unikey, onde permaneci como membro até que fosse comprado por uma instituição de ensino superior que acabou por fechá-lo. O do Aleksandar Mandic virou o Mandic, foi vendido para um grande provedor que mudou seu nome, nome que foi recuperado pelo Aleksandar alguns anos mais tarde e restabelecido como Mandic, ao qual pertenço e, a meu juízo, é o melhor serviço de correio eletrônico disponível no Brasil. Mas não pode ser considerado um “pequeno provedor”. É grande, e dos bons.

O fato é que, com o passar do tempo e o estabelecimento dos grandes provedores de Internet, todos ligados a gigantescos conglomerados financeiros ou editoriais, os pequenos praticamente desapareceram. Ou foram fechados ou tiveram seu acervo de membros comprados pelos grandes.

O que é uma lástima.

Grandes provedores, por melhores que sejam seus serviços, são impessoais. Se você precisar de suporte técnico cairá em um desses sistemas de tele-atendimento onde os atendentes são treinados a “estarem procurando” a solução de seu problema em um banco de dados e “estarem fornecendo” apenas as informações que porventura lá encontrarem. Atreva-se a “estar apresentando” um problema inusitado cuja solução não foi ainda incorporada ao banco de dados e prepare-se para “estar esperando na linha” até que o atendente “venha a lhe estar dizendo”, com o mesmo tom impessoal adotado para fornecer a solução de seu problema, que infelizmente “nos somente vamos estar podendo resolver a questão” dentro de alguns dias e você que se conforme em “estar esperando” até lá. E peça para falar com alguém responsável para ver o que é sofrimento. Coisa mais impessoal não há.

A exceção é o Mandic, onde você pode mandar uma mensagem para o “dono” e ser atenciosamente respondido pelo próprio Aleksandar. É o atendimento tipo “fale com o dono”, conhecido de todo ex-membro de um BBS e que agora, com a exceção mencionada, não há mais.

Exceto, é claro, nos pequenos provedores.

Mas ainda há pequenos provedores?

Nos grandes centros como Rio e São Paulo, assim como na maioria das capitais de Estados, não conheço. Mas ainda existem alguns no interior. Felizmente.

Dia desses tive a agradável experiência de lidar com um desses.

Ocorre que por razões de ordem familiar montei um pequeno apartamento em Saquarema, aprazível balneário do litoral fluminense. Costumo freqüentá-lo nos finais de semana, sempre que consigo um deles livre de obrigações e afazeres. Afazeres e obrigações que, sempre que posso, levo até lá para dar conta no sossego do lugar.

Acontece que, dada sua natureza, para dar conta da maioria de meus afazeres eu preciso de um computador e uma conexão Internet, preferivelmente de alta taxa (“banda larga”).

Computador foi fácil: juntei meia dúzia de placas que tinha em casa, comprei o que faltava e montei um bicho com capacidade de processamento suficiente para rodar o Vista.

Faltava a conexão Internet.

Figura 1: NETspeedy.

Mas, por ela, nem precisei procurar muito. Ali mesmo em Saquarema, nas vizinhanças, de meu apartamento, há um provedor. Chama-se < http://www.netspeedy.com.br/ > Netspeedy Telecom e, além de hospedagem de sítios e “serviços de informática para empresas e clientes em geral”, oferece diversos planos de assinaturas Internet. Inclusive o que me interessava: conexão à Internet com taxa de 250 kbps (lá não preciso mais que isso; mas o Netspeedy fornece até 1 mbps).

O Netspeedy não é um gigante, naturalmente. É uma empresa pequena, de gente honesta e interessada em prestar um serviço de boa qualidade. Em suma, é um típico pequeno provedor Internet.

Na manhã do último sábado passei por lá, disse que precisava de uma conexão e gostaria de solicitar o serviço.

- Para quando? Perguntou Márcia, uma das sócias. Quer para hoje?

Bem, dias antes eu havia cogitado recorrer a um desses serviços de Internet sem fio de terceira geração e, telefonando para a prestadora, fui informado que poderia contratá-lo por telefone mas que, infelizmente, Saquarema não tinha cobertura 3G. Porém, se eu quisesse contratar assim mesmo, o “modem” e as instruções para instalação – que eu mesmo deveria providenciar mas que não me preocupasse que “era fácil e eu poderia resolver em cinco minutos” – me seriam enviados pelo correio e estariam em minhas mãos dentro de sete a dez dias úteis. Descobrir que eu poderia ter para o mesmo dia uma conexão de 250 kbps instalada por um técnico preparado para resolver eventuais problemas foi uma grata surpresa...

- E dá para hoje? perguntei eu.

- Bem, a gente está fechando o escritório agora, mas damos um jeito. Onde é?

Dei o endereço.

- Ah, é aqui pertinho, não tem problema. Logo mais, depois do almoço, o técnico irá providenciar a instalação.

E assim foi feito.

Um par de horas depois me aparece o Marcelo, simpático e cheio de boa vontade. Examina a máquina, estica cabo, sobe ao telhado, desce o cabo pela área de serviço, traz até o micro e conecta. Nesse meio tempo surge a própria Márcia, prestativa, que anota os dados de minha placa de rede e volta ao escritório para configurar a conexão.

Resultado: menos de três horas depois de solicitar o serviço estava eu alegremente surfando em Saquarema. Coisa relativamente comum na região, mas no meu caso o surfe era na Internet. Que funcionou absolutamente nos conformes. E, de quebra, no final da tarde ainda recebi um telefonema da própria Márcia só para saber se a instalação tinha sido bem sucedida e se eu precisava de mais alguma coisa.

Não, não precisava. Eu só precisava mesmo era agradecer.

O engraçado é que até aí não se havia falado em dinheiro. Só na segunda-feira pela manhã, antes de voltar para o Rio, quando passei no escritório para acertar as contas, me foi dado o preço (módico) do material gasto (a instalação é gratuita) e o valor mensal do serviço. Que paguei através de depósito bancário.

Voltei para o Rio com o gostinho de ter sido atendido como gente, não como mais um “número de usuário” e sabendo que, além dispor de um serviço de boa qualidade (pelo qual, antes que alguma voz suspeita se alevante afirmando o contrário, eu pago como qualquer outro usuário), se alguma coisa falhar serei atendido como uma pessoa e não como um número de CPF. E receberei a atenção que todo cliente merece.

E tudo isto sem precisar “estar ouvindo” um único gerúndio...

Meu amigo, bateu uma nostalgia que nem te falo... E deu uma saudade do tempo em que todos os provedores eram assim...

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