Sítio do Piropo

B. Piropo

< Coluna em Fórum PCs >
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14/07/2008

< Vista: Por que foi lançado sem o WinFS? >


Muito se falou e ainda se tem falado sobre o minuciosamente planejado, ansiosamente aguardado e decepcionantemente adiado lançamento do WinFS, o sistema de arquivos que a Microsoft pretendia lançar juntamente com o Windows Vista. Uma mera pesquisa no Google com “winfs” retorna perto de um milhão de resultados, incluindo entradas na Wikipedia e, sem exagero, centenas de milhares de artigos sobre o tema.

Trata-se, portanto, de um assunto que tem despertado um razoável interesse na comunidade de internautas. Mas que, não obstante isso, parece não ter sido integralmente compreendido pela maioria dos usuários. Pois, se fosse possível extrair uma “opinião média” das pessoas que tomaram conhecimento do assunto, esta opinião provavelmente seria parecida com “o WinFS é mais uma das promessas de melhoria que a MS faz e não consegue cumprir e apesar disso lança o sistema assim mesmo, sem ele, por razões comerciais”. Uma opinião que bem pode ter sua quota de razão. Mas que, como toda conclusão apressada, talvez seja um tanto superficial. Será que tudo o que se tem a dizer sobre o WinFS se resume a isto?

O que vocês lerão a seguir é um trecho, traduzido livremente por mim, do livro “Windows Vista Secrets”, de Brian Livingston e Paul Thurrot, um calhamaço de mais de seiscentas páginas publicado pela Editora Wiley cuja leitura eu recomendo veementemente não apenas por se constituir em excelente material para quem está interessado em conhecer detalhes sobre o funcionamento e as características de Vista como também porque tanto Livingston como Thurrot, embora profundos conhecedores de Windows e suas manhas, são articulistas independentes e não mantêm qualquer relação comercial com a MS, portanto espera-se deles uma opinião isenta.

Figura 1: Vista Secrets, Livingston e Thurrot

Vejamos o que eles dizem sobre o WinFS no tópico sobre “pastas virtuais” de seu livro.

“Antes de mergulhar fundo em um território potencialmente confuso, vamos olhar um pouco para trás. Para compreender as pastas virtuais de Vista é importante, primeiro, entender as intenções que se escondem por detrás desta funcionalidade. E já que é sobre o tantas vezes postergado Vista que estamos falando, ajudaria bastante conhecer os planos originais da Microsoft para sua interface com o usuário (‘shell’) e suas pastas virtuais e comparar o que foi planejado com o que efetivamente ocorreu.

“Veja bem: a Microsoft não havia previsto originalmente que Vista incluiria um sistema de arquivos hierárquico tradicional, com ‘letras’ de unidades de disco, vias de diretório e pastas. No lugar de tudo isso a grande empresa de software tinha a intenção de virtualizar completamente o sistema de arquivos, de tal forma que você jamais teria que se preocupar com conceitos enigmáticos como ‘a raiz de C:’ ou ‘a pasta Arquivos de Programas’. Em vez disso você simplesmente acessaria seus documentos e aplicativos sem jamais se preocupar sobre o local onde eles residiriam no disco. Afinal, é justamente para controlar e manter este tipo de coisa que os computadores são bons, não é verdade?

“Aplicar este conceito original exigiria uma forte dose de tecnologia. A peça central desta tecnologia era um novo mecanismo (NT: ou ‘motor’; no original ‘engine’) denominado WinFS (abreviação de Windows Future Storage”) que combinaria o que o sistema de arquivos NTFS tem de melhor com a funcionalidade dos produtos da base (ou ‘banco’) de dados relacional Microsoft SQL Server. Na ocasião em que este livro estava sendo escrito (NT: o livro foi publicado originalmente em 2007) a Microsoft já estava trabalhando no WinFS e seus predecessores há cerca de uma década.

“Havia apenas um problema: a tecnologia WinFS não estava sequer perto das condições em que podia ser liberada para o público à tempo de ser lançada com Windows Vista. Então a Microsoft removeu o WinFS de Vista e começou a desenvolvê-lo separadamente do Sistema Operacional. Mais tarde, cancelou até mesmo os planos de vendê-lo como produto independente. Decidiu, em vez disto, incorporá-lo às futuras versões de Windows e outros produtos da Microsoft.

“Mesmo com o WinFS fora de questão, a Microsoft percebeu que poderia oferecer muito de seus benefícios usando parte dele para atualizar o sistema de indexação de arquivos que vinha fornecendo com Windows há anos. E esta foi a intenção por cerca de um ano, de 2004 a 2005, durante o período de desenvolvimento de Vista. No lugar das pastas especiais, como ‘Documentos’, os usuários teriam acesso a pastas virtuais como ‘Todos os Documentos’, que congregariam todos os documentos presentes nos discos rígidos os apresentariam em um único local. Outras pastas especiais, como ‘Imagens’ e ‘Músicas’, seriam substituídas por pastas virtuais.

“Problema resolvido, certo? Errado. Usuários que testavam o produto em estágio beta de desenvolvimento acharam muito confusa a transição entre pastas normais e pastas virtuais. O que, pensando bem, deveria ter sido óbvio. Afinal, uma pasta virtual que exibe todos os seus documentos pode vir a ser relativamente útil quando se está procurando por algo. Mas onde você gravaria um novo arquivo? Seria uma pasta virtual um lugar real para um aplicativo que desejasse salvar dados? E seria necessário que os usuários percebessem as diferenças entre pastas virtuais e pastas normais? Por que razão existiriam dois tipos de pastas?

“Com os atrasos se acumulando, a Microsoft desistiu de seu esquema de pastas virtuais assim como já havia desistido de incorporar o WinFS ao Vista. Por esta razão, o sistema de arquivos que se vê em Vista hoje em dia é bastante semelhante ao de Windows XP e das versões prévias de Windows. Ou seja: o sistema de arquivos ainda usa letras como designadores de unidades de discos, pastas normais, e pastas especiais da interface como ‘Documentos’ e ‘Imagens’. Se você conhece bem qualquer versão anterior de Windows, há de se sentir em casa na interface de Vista.

“Há apenas uma diferença, substancial embora não particularmente óbvia. Mesmo tendo decidido não substituir as pastas especiais da interface nesta versão, a Microsoft persistiu no conceito de pastas virtuais e integrou sua tecnologia no Windows Vista. A idéia é que os usuários irão se acostumando aos poucos ao conceito de pastas virtuais desde agora e talvez, futuramente, uma nova versão de Windows simplesmente migrará para aquele sistema e, eventualmente, atingir-se-á a uma espécie de Nirvana dos ‘hackers’ (NT: no original: ‘Nerdvana’) onde a estrutura tola dos sistemas de arquivos que usamos hoje se torne subitamente ultrapassada.

“Por isto as pastas virtuais estão quase escondidas no Vista. Isto faz delas uma poderosa funcionalidade para o usuário e as torna inerentemente interessantes, particularmente para os leitores deste livro. A maior parte das pessoas não irá sequer descobrir as pastas virtuais e seu conteúdo de buscas compartilhadas. Com efeito, se você quiser dominar uma das mais impressionantes tecnologias contidas em Windows Vista, este é o lugar certo para começar. E, com os diabos, as habilidades que você irá adquirir agora se constituirão em uma tremenda vantagem quando a Microsoft decidir, finalmente, aposentar o sistema de arquivos atual. É só uma questão de tempo”.

O que se viu acima é uma mistura de história e opinião. História quando os autores relatam as idas e vindas ocorridas durante o desenvolvimento de Vista, comuns em projetos de grande porte desenvolvidos por um grupo de equipes. E opinião quando eles inferem os motivos destas idas e vindas. Mas seja como for, é um bom relato do que é – ou do que quase veio a ser – o tão falado WinFS.

Para os que estranharam que quase meia coluna seja uma mera citação, esclareço que há razões para isto. A primeira é que a citação é de um livro, não de um texto disponível na Internet e portanto ao alcance de qualquer leitor. E um livro que, tanto quanto eu saiba, sequer foi traduzido para o Português – fato que, por si só, já se constituiria em razão adicional, posto que nem todos os leitores destas mal traçadas são angloparlantes. Mas há uma razão ainda mais importante: em todas as minhas (muitas) leituras e buscas sobre Vista e WinFS, este foi o único texto que encontrei correlacionando o descartado sistema de arquivos com uma característica muito especial de Vista sobre a qual quase não se fala: as pastas virtuais. O que por si só é curioso, já que para os usuários de Windows elas são uma novidade e tanto. Uma novidade tão grande (falaremos mais sobre ela adiante e então o fato se tornará mais evidente) que deveria ser alvo de grande alaúza e alvoroço por parte da Microsoft.

Não foi. E o fato de não haver sido muito provavelmente foi proposital.

O que nos leva a um segundo ponto: por que cargas d’água a Microsoft haveria de dar tão pouca divulgação a uma funcionalidade tão importante e radicalmente diferente das versões anteriores? E por que, como já fez tantas vezes antes, estando o sistema WinFS “quase pronto” à época do lançamento de Vista, ela simplesmente não o inseriu no SO e deixou para corrigir os eventuais problemas através de “atualizações do sistema” ou “pacotes de serviço” como é seu hábito?

Afinal, o Microsoft SQL Server já está disponível há anos e é um produto inteiramente consolidado. Como igualmente consolidado e disponível há anos está o NTFS. E estes são os dois pilares sobre os quais se apóiam o WinFS. Será que não daria mesmo para inclui-lo no Vista?

Bem, se esta pergunta for feita diretamente a um representante da MS certamente receberá uma resposta evasiva. Trata-se de estratégia de desenvolvimento, um assunto que as grandes empresas não costumam discutir em público. Então tudo o que se pode fazer é especular. Como especularam Brian Livingston e Paul Thurrot no trecho citado. Então, especulemos também nós.

Na próxima coluna pretendo abordar justamente o tema das pastas virtuais de Vista, sua ligação estreita com o sistema de busca e indexação de documentos e seu funcionamento. Depois disto, espero, o assunto ficará mais claro. Mas, mesmo antes, vale a pena tecer algumas considerações à respeito.

O que diz a < http://en.wikipedia.org/wiki/WinFS > Wikipedia sobre WinFS? Na edição em Inglês consta lá: “WinFS (abreviação de Windows Future Storage) é o nome de código de um sistema de armazenamento e gerenciamento de dados baseado em base de dados relacionais desenvolvido pela Microsoft e primeiramente demonstrado em 2003 como um subsistema de armazenamento avançado para o sistema operacional Windows, tendo sido concebido para persistência (NT: vale a pena acompanhar o atalho da Wikipedia para o verbete < http://en.wikipedia.org/wiki/Persistence_(computer_science) > “persistence”) e gerenciamento de dados estruturados, semi-estruturados e não estruturados. WinFS inclui uma base de dados relacionais para armazenamento de informações e permite armazenar qualquer tipo de informação, desde que haja um esquema bem definido para cada tipo”.

O verbete, que se estende por diversos parágrafos descrevendo o modelo e a estrutura do sistema de arquivos, é uma boa fonte de informação técnica sobre o WinFS (me refiro ao da edição da Wikipedia em Inglês; o da versão em Português se estende por dois parágrafos curtos e se limita a repetir o que todos já sabem sobre o assunto). Mas, no que nos concerne, a parte interessante está no parágrafo acima citado: WinFS é uma evolução do sistema de arquivos atualmente adotado por Windows (referindo-se naturalmente ao NTFS) que se baseia fortemente em conceitos de bases de dados relacionais.

Pois bem: como os que tiverem paciência para acompanhar as próximas colunas perceberão, o sistema de pastas virtuais de Vista corresponde quase exatamente à mesma descrição.

Então o que se pode concluir de tudo isso?

Bem, o que vocês lerão adiante nada mais é que minha opinião. E, como já foi devidamente ressaltado pelo Mestre Flávio Xandó em um de seus sempre lúcidos comentários a uma de minhas colunas, ao contrário dos articulistas, que devem se ater aos fatos, cabe aos colunistas externarem suas opiniões. Portanto não é de estranhar que eu use uma coluna para isto. Especialmente em um Fórum, que oferece o espaço dos comentários para que os leitores retruquem, exprimindo livremente suas próprias opiniões. Então, vamos nessa.

A meu ver a decisão de não incluir o WinFS no Vista deve-se mais a fatores estratégicos do que técnicos. Pronto – ou pelo menos “pronto” no nível geralmente considerado satisfatório pela MS – ele provavelmente já estava. Tanto estava que foi incluído em uma das versões beta, naquela citada por Livingston e Thurrot por haver despertado tanta estranheza e confusão entre os usuários que a testaram naquele estágio. Estranheza e confusão estas que, segundo os mesmos autores, motivaram sua retirada estratégica.

Adiante falaremos sobre o sistema de pastas virtuais de Vista. Não dá para abordá-lo nesta coluna porque tem um caráter tão inesperado e diferente de tudo o que se viu em Windows até agora que, para ser absorvido, pede uma abordagem metódica e didática que tentarei nas próximas colunas. Mas qualquer usuário de Vista que tenha procurado se informar sobre elas (e foram poucos, porque como muito bem observado por Livingston e Thurrot em seu livro, as pastas virtuais “estão quase escondidas”) perceberá que falta pouco, muito pouco, para que elas, em si mesmas, possam ser consideradas um sistema de arquivos desenvolvido a partir de uma base de dados indexada e fortemente apoiado em metadados.

Agora, imaginem um sistema de arquivos com esta configuração. Ele seria tão diferente de tudo a que estamos acostumados que até mesmo os usuários mais experientes volta e meia se sentiriam “perdidos” diante dele.

Para um iniciante absoluto, ou seja, para quem está usando computadores pela primeira vez e estabelece este contato inicial em uma máquina com um sistema de arquivos semelhante ao WinFS, talvez a coisa pareça bem mais fácil – sobretudo por ser mais natural. Quando se quer encontrar um documento, pensa-se primeiro no que ele contém, em quem o escreveu, a quem foi dirigido, quando foi escrito. Dificilmente o usuário o associará imediatamente ao local onde o guardou. Especialmente um usuário iniciante.

E esta é a principal diferença entre os sistemas de arquivos tradicionais e o WinFS.

Enquanto nos sistemas de arquivos que usamos até agora, para encontrar rapidamente um arquivo é preciso lembrar “de cara” onde ele foi guardado (metaforicamente, é claro; refiro-me à pasta ou via de diretório em que ele foi gravado), em um sistema como o WinFS basta saber o que o documento contém, a quem foi dirigido, quando ou por quem foi escrito ou algo parecido. Ou seja: exatamente aquilo que costumamos guardar na memória quando pensamos em “documentos”.

Porém, para os não iniciantes, os usuários mais calejados de computadores, acostumados a percorrer uma estrutura hierárquica toda vez que querem encontrar um arquivo, o WinFS representa uma “quebra de paradigma” tão violenta que torna difícil aceitá-lo sem grandes sobressaltos. Pois todos nós estamos tão afeitos a associar o armazenamento de documentos a um sistema hierárquico de pastas ou diretórios (ou seja, ao local onde estão armazenados) em vez de a suas características mais óbvias, como conteúdo e autor, que inevitavelmente nos sentiríamos perdidos diante de um sistema que abandonasse de chofre o método antigo (quer dizer, o atual, já que apesar de antigo, é usado até hoje).

Mas, convenhamos, procurar documentos com base nas suas características (e não nas do local onde foi armazenado) certamente é muito mais natural. E, assim que nos acostumarmos com isso, tornar-se muito mais fácil.

O segredo da coisa toda está na expressão “assim que nos acostumarmos com isso”. E a MS é uma empresa com experiência suficiente para saber que, por mais popular e disseminado que seja, qualquer software que sofra uma mudança importante tão radical que os velhos usuários tenham “que se acostumar” a ela, está definitivamente fadado ao fracasso (quem se lembra do dBase sabe exatamente do que eu estou falando).

Então, a meu ver (e, ressalto: esta é apenas minha opinião, baseada no conhecimento que tenho do sistema operacional Vista e na observação dos fatos), acredito que a MS não incorporou o WinFS a Vista por achar que mudar as características do sistema de arquivos tão radicalmente de uma versão para outra seria extremamente perigoso do ponto de vista comercial. A transição seria tão brusca que despertaria uma rejeição ainda maior que a já esperada diante do novo (e que Vista vem sofrendo, como é notório).

Portanto, penso eu, a empresa achou melhor aguardar um pouco para incluir o sistema de arquivos WinFS no Vista. Ou, pelo menos, para fazê-lo explicitamente. E houve por bem manter o bom e (já) velho sistema operacional NTFS.

Mas isso não quer dizer que o WinFS não estivesse pronto, E muito menos que não tenha sido incorporado ao Vista.

Penso que foi incorporado, sim. Mas não como sistema de arquivos. O WinFS faz parte do Vista como um sistema de pastas virtuais. E, propositalmente, isto foi feito sem alarde, quase sub-repticiamente.

Assim, quem sabe, os usuários irão se acostumando aos poucos a procurar por (e encontrar rapidamente) seus documentos de uma forma mais natural, mais simples, mais direta. E quando se der, afinal, a transição entre sistemas de arquivos, em uma futura versão de Windows (quem sabe Windows Seven?) eles não sintam uma mudança tão radical.

Repetindo: esta é apenas minha opinião. Pode ser uma opinião esdrúxula ou descabida, quem sabe. Mas tenho razões para pensar assim. E algumas delas serão discutidas nas colunas em que o sistema de pastas virtuais de Vista for, enfim, desvendado.

Até lá.

 

B. Piropo