Escritos
B. Piropo
Internet:
< Coluna em ForumPCs >
Volte de onde veio
08/08/2011
< Afinal, quem é o mais estúpido? >

Dia destes li uma frase interessante. Tão interessante que cheguei a citá-la na coluna passada quando escrevi sobre o prêmio Darwin. Só não esperava ser obrigado a citá-la novamente tão pouco tempo depois em uma coluna sobre um assunto tão diferente.
Ou não...
A frase é de George Carlin e aqui vai o original em inglês seguido de uma tradução livre feita por este vosso criado: “Just think how stupid the average person is, then realize that half of them are even stupider!” (Considere o quão estúpida é a pessoa de inteligência média, depois se conscientize de que metade das pessoas é ainda mais estúpida que ela!”).
A frase apenas verbaliza uma verdade meridiana que, não obstante, em geral escapa à nossa percepção. Pense um pouco: quando você se refere a uma pessoa e a qualifica como “de inteligência média” ou “mediana”, qual a efetiva opinião que você tem sobre seus dotes intelectuais? A considera alguém que se destaca por sua inteligência ou por sua estupidez? Recomendaria que lhe fosse entregue um trabalho que exigisse argúcia? Daria a ela uma tarefa de grande responsabilidade? Ou reservaria para ela apenas aquelas fainas repetitivas, que não exigem raciocínio mas apenas a repetição sucessiva de um número limitado de ações singelas?
Se você analisar sua provável resposta às questões acima acabará por perceber que, quando diz que “fulano tem inteligência média”, está apenas usando um delicado eufemismo para não dizer claramente em linguagem direta e popular que “fulano é burro”. O que significa que, salvo exceções, em valores absolutos, classificamos na categoria de estúpida uma pessoa cujo coeficiente intelectual se situa na média.
Entendeu agora o real significado da frase de Carlin?
Pois é isso mesmo: há por aí 3,5 bilhões de pessoas (metade da população do planeta) ainda mais estúpidas do que aquela pessoa de nível de inteligência médio que você já não considerava um luminar.

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Para ilustrar...

E não pense que isto as impede de alcançar postos proeminentes na sociedade.
Aqui vai uma pequena história para ilustrar a questão.

Seriam os usuários do IE mais estúpidos? Ou menos inteligentes?
Semana passada um relatório divulgado por uma empresa denominada AptiQuant de Vancouver, Canada (498 Richards Street, Vancouver, BC V6B 2Z3, Tel. +1 (778) 242-69002) chegou a uma conclusão espantosa. Empregando a metodologia adiante descrita e estatisticamente inquestionável, cujos resultados são resumidos no gráfico abaixo também divulgado pela empresa, a AptiQuant avaliou o Quociente Intelectual dos usuários de diferentes programas navegadores.
Quem desejar pode obter o relatório completo em formato PDF clicando < http://www.aptiquant.com/downloads/IQ-Browser-AptiQuant-2011.pdf > aqui. Quem estiver interessado apenas no resumo, basta prosseguir a leitura.
A conclusão indiscutível e apoiada em dados estatísticos obtidos de um considerável universo de pesquisa foi que os usuários do Internet Explorer são claramente menos inteligentes que os dos demais programas. E quanto mais antiga a versão, menor seu nível de QI. Ou seja, e recorrendo Mia um vez à linguagem popular: os usuários do IE6 são burros.
Segundo o relatório, os testes foram realizados em 2006 e repetidos em 2011 sem alteração significativa nos resultados.

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Figura 2: Gráfico dos resultados dos testes

A AptiQuant divulgou que, para seus testes, adotou a seguinte metodologia: em duas diferentes ocasiões, 2006 e 2011, internautas de idioma inglês, residentes nos EUA, Nova Zelândia, Reino Unido, Canadá e Austrália foram atraídos por anúncios postados na rede que os convidavam a se inscrever voluntariamente em um teste gratuito de aptidão intelectual (QI, ou Quociente Intelectual). Aos que aceitaram foi fornecido um questionário cujas respostas, ainda segundo a AptiQuant, seriam mantidas em sigilo e cujo primeiro passo consistia em fornecer alguns dados pessoais, que incluíam a idade. Baseado nas respostas, os menores de dezesseis anos eram desviados para um segundo endereço onde o teste era realizado, porém seus resultados não eram computados na pesquisa. Aos remanescentes foi aplicado, via Internet, o respeitabilíssimo teste de QI “Wechsler Adult Intelligence Scale (IV) test” cujos resultados foram computados e submetidos a um tratamento estatístico que procurava correlacionar o índice alcançado com o navegador usado.
Ainda segundo a AptiQuant, o universo testado foi constituído de 101.326 usuários de língua inglesa maiores de 16 anos.
A Figura 2 mostra o gráfico dos resultados obtidos em 2006 (em azul) e 2011 (em vermelho).
A comparação dos resultados de 2006 com os de 2011 indica que houve uma migração de usuários do IE para outros navegadores e a interpretação dos resultados de 2011 mostra claramente que os que mudaram foram justamente aqueles de maior QI. O relatório afirma textualmente: "The comparison clearly suggests that more people on the higher side of IQ scale have moved away from Internet Explorer in the last 5 years" (A comparação sugere claramente que a maioria das pessoas cujo QI se situa próximo ao topo da escala se afastaram do IE nos últimos cinco anos). O que pode ser interpretado como: “as pessoas inteligentes que usavam o IE trocaram de programa navegador”.
Já os resultados de 2011 isolados evidenciam que os usuários de mais alto QI são os que dão preferência ao Opera, seguidos de perto pelos usuários do Camino (um programa navegador para Mac baseado no motor Gecko que roda no OS-X) e, surpreendentemente, pelos que usam o IE9, porém com o programa auxiliar (“plug-in”) Chrome Frame instalado (e que faz com que o IE9 se comporte de forma semelhante ao Google Chrome). Estes três grupos exibiam QI acima de 120.
Mais abaixo, numa faixa próxima do QI 110, vinham os usuários do Firefox, Chrome e Safari, em ordem crescente de QI. E, finalmente, com QI consistentemente abaixo de 100, os usuários do Internet Explorer separados por versão do programa. Ainda em ordem crescente de QI: IE6, IE7, IE9 e IE8.
Enquanto os usuários do IE8 exibiam um QI pouco abaixo de cem, os do IE6 registraram um QI da ordem de 81, ou seja, podem ser incluídos sem receio no grupo daqueles que correm o risco de lambuzar a testa quando tomam sorvete em casquinha. Os valores dos quocientes intelectuais deste último grupo sugerem a seguinte interpretação: “quem usa o IE é burro, e tão mais burro quanto mais antiga for a versão do IE”.
Ainda citando textualmente o relatório: "From the test results, it is a clear indication that individuals on the lower side of the IQ scale tend to resist a change/upgrade of their browsers." (os resultados do teste indicam claramente que indivíduos na extremidade inferior da faixa de QI relutam diante da troca ou atualização de seus programas navegadores), querendo com isto dizer que as pessoas estúpidas que começaram a usar Windows com o IE6 instalado resistem a efetuar qualquer mudança, ainda que para uma nova versão do mesmo navegador. Mais adiante o relatório afirma que esta relutância em trocar de programa ou atualizar a versão exibida pelos usuários situados na faixa mais estúpida do espectro não tem a ver especificamente com o IE, mas se manifesta para qualquer software, o que pode ser interpretado como “os estúpidos resistem a mudanças provavelmente pela dificuldade que sentem em aprender coisas novas”. Porém acrescenta que esta afirmação ainda necessita de pesquisas adicionais antes de ser efetivamente confirmada.
Fechando o relatório (e, como se verá adiante, este é o ponto chave), vem a afirmação que esta relutância implica significativo prejuízo para os desenvolvedores de sítios. Textualmente: "Any IT company involved in web development will acknowledge the fact that millions of man hours are wasted each year to make otherwise perfectly functional websites work in Internet Explorer." (Qualquer empresa envolvida no desenvolvimento web reconhecerá o fato de que milhões de homens hora são desperdiçados anualmente apenas para que sítios absolutamente funcionais em outros navegadores funcionem no IE).
Em suma: uma pesquisa de resultados devastadores. Que podem ser resumidas pelas frases já citadas e adiante repetidas:

  1. as pessoas inteligentes que usavam o IE trocaram de programa navegador;
  2. quem usa o IE é burro, e tão mais burro quanto mais antiga for a versão do IE;
  3. os estúpidos resistem a mudanças provavelmente pela dificuldade que sentem em aprender coisas novas.

Um conjunto de conclusões deste quilate não poderia deixar de atrair a atenção da mídia especializada.

A repercussão dos resultados
Querendo ou não, o Internet Explorer ainda é o líder do mercado de navegadores. Os dados fornecidos pela <
http://en.wikipedia.org/wiki/Usage_share_of_web_browsers > Wikipedia para junho de 2011 o apontam como detentor de 41% do mercado, seguido pelo Firefox com 29% e pelo Chrome, com 18% (o Opera, que a pesquisa da AptiQuant apontou como sendo usado pelos mais inteligentes, parece mesmo ser adotado pela “crème de la crème” dos usuários, a elite absoluta, pois se situa em último lugar entre os navegadores para dispositivos fixos, detendo menos de 3% do mercado que, não obstante e à julgar pela pesquisa, são os 3% do topo).
Resultados como estes, sob a chancela de uma instituição com a seriedade de uma AptiQuant, causaram um alvoroço danado tanto entre os usuários quanto, sobretudo, entre os críticos e detratores do programa. E a repercussão foi intensa seja na imprensa escrita seja na Internet, rádio e televisão. Afinal, um relatório que conclui que o programa navegador mais utilizado pelos internautas é usado por detentores do quociente intelectual mais baixo entre seus pares é notícia, seja qual for o critério adotado. E, como tal, foi fartamente noticiado.

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Figura 3: matéria do The Telegraph

Dados da imprensa escrita não tenho e, quanto à Internet, posso fornecer alguns URLs mas os que os visitarem perceberão – pelas razões que adiante se tornarão claras – que ou foram tirados do ar ou, os mais honestos, foram precedidos por uma advertência. Mas, < http://articles.cnn.com/2011-08-03/tech/explorer.report.faked_1_apparent-hoax-website-report?_s=PM:TECH > segundo a CNN (que também veiculou os resultados da pesquisa), a notícia mereceu destaque na respeitabilíssima BBC, na não menos respeitável CNet, no vetusto London Daily Mail e no não menos vetusto The Telegraph (veja Figura 3). Como também foi veiculada, vejam vocês, pela NPR (National Public Radio, uma espécie de “Rádio Ministério da Educação” americana, só que com programas que interessam à maioria da população; veja Figura 4) – embora com uma boa dose de bom humor, como se percebe pelo título de sua chamada na Internet: < http://www.npr.org/blogs/thetwo-way/2011/08/03/138924233/study-suggests-internet-explorer-users-are-um-kind-of-slow > “Study Suggests Internet Explorer Users Are, Um, Kind Of Slow” (Estudo sugere que quem usa o Internet Explorer e, hum... assim meio devagar) .

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Figura 4: Notícia no sítio da NPR

Ainda segundo a CNN, até mesmo o mais que respeitável Forbes, cujo mote é “Home Page for the World´s Business Leaders” e se dedica a sisudas análises de tendências do mercado financeiro, abriu espaço para comentar o relatório da AptiQuant – embora hoje não se encontre no sítio sequer vestígios disto.
Alguns trataram a questão seriamente, como o Telegraph, com notícia cujo título era < http://www.telegraph.co.uk/technology/internet/8674678/Internet-Explorer-users-have-below-average-IQ.html > “Internet Explorer users ‘have below-average IQ’”, colocando a afirmação “têm QI abaixo da média” entre aspas para deixar claro que se tratava de citação (Figura 3). Ou o Global Post (veja Figura 5), um sério sítio de notícias internacionais, cuja manchete era < http://www.globalpost.com/dispatches/globalpost-blogs/weird-wide-web/internet-explorer-users-lower-iq-ie-study > “Internet Explorer users have below-average IQ, survey says”, com um cauteloso “survey says” (“afirma a pesquisa”) no final para indicar que a afirmação de que “os usuários do IE têm um QI abaixo da média” era feita pelos responsáveis pela pesquisa e eles estavam apenas veiculando. É verdade que no subtítulo pegaram pesado ao se dirigirem diretamente ao leitor perguntando: “Are you an IE 6 user? Then chances are, you're an idiot — at least according to a new survey matching IQ with choice of web browser” (Você é um usuário do IE6? Então há boas possibilidades de que você seja um idiota – pelo menos de acordo com uma nova pesquisa associando o QI com a escolha de um programa navegador). E eu gostaria de saber qual a reação do autor desta pergunta, diante dos desdobramentos da notícia, ao constatar que há boas possibilidades que ele seja um idiota – pelo menos de acordo com os critérios do que vem a ser o bom jornalismo.

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Figura 4: Notícia no sítio da NPR

Já outros foram cautelosos, como o Guardian, do Reino Unido (veja Figura 6), uma respeitabilíssima publicação que comentou o relatório da AptiQuant com o subtítulo < http://www.guardian.co.uk/technology/2011/aug/02/are-internet-explorer-users-stupid > “Can it really be true that users of Internet Explorer are stupider than average?” (Pode realmente ser verdade que os usuários do Internet Explorer são mais estúpidos que a média?”), talvez prenunciando os acontecimentos futuros.

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Figura 6: A nota do Guardian

Outros – particularmente os sítios frequentados e editados pelos que se julgam “entendidos” em informática e detentores de seus sagrados mistérios, como o The Register (Figura 7), foram claramente irônicos, evidenciando o prazer que sentiam com a confirmação “oficial” de algo que, segundo acreditavam, eles mesmos já sabiam há muito tempo: < http://www.theregister.co.uk/2011/07/29/aptiquant_iq_survey/ > “It's official: IE users are dumb as a bag of hammers ” (“Agora é oficial: usuários do IE são burros como uma porta”; e aqui vai uma liberdade do tradutor, já que a expressão idiomática “dumb as a bag of hammers” equivale à brasileira “burro como uma porta”). E acrescentam, com indisfarçável gáudio, no subtítulo: “100,000 test subjects can't be wrong” (“os resultados de cem mil testes não podem estar errados”). Como toda vez que leio uma afirmação deste teor em algum lugar não consigo evitar a lembrança da velha frase: “Eat shit! Eighty billion flies can´t be wrong” – que não posso traduzir senão o programa censor cortará, acho que ela cabia perfeitamente no contexto. E não posso deixar de cogitar se seu autor classificaria como “dumb as a bag of hammers” o jornalista de um sítio de grande afluência de visitantes, como o The Register, que noticia algo com estardalhaço somente porque lhe agrada o conteúdo da suposta notícia sem averiguar sua autenticidade.

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Figura 7: a “notícia” no The Register

Em suma, o reboliço foi grande. Houve de tudo. Houve até quem copiasse o título e “adaptasse” o texto de outro, como o Sitepoint, mostrado na Figura 8,              cuja chamada era: < http://www.sitepoint.com/ie-users-low-iq/ > “It’s Official: IE Users Have a Lower IQ!” (Agora é oficial: usuários do IE têm um QI mais baixo! – com ponto de exclamação e tudo).

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Figura 8: Nota do Sitepoint

Mas o pior foi o fato de que um grupo de “leais” usuários do IE < http://www.aptiquant.com/news/aptiquant-threatened-with-a-lawsuit-by-loyal-internet-explorer-users/ > ameaçou processar a AptiQuant por haver realizado e publicado a pesquisa.
Pô, assim eles acabam confirmando o relatório...

Mas, afinal, quem é a AptiQuant?
A AptiQuant atende pelo nome de Tarandeep Gill, um pequeno empresário canadense, programador formado e com mestrado em ciências da computação pela GeorgiaTech e desenvolvedor de sítios para a Internet. Um sujeito que simplesmente não aguentava mais as incompatibilidades do Internet Explorer 6 com os modernos padrões de desenvolvimento de páginas – e que, para ser honesto, está coberto de razão.
Ele forjou a pesquisa < http://www.aptiquant.com/articles/396/ > com o objetivo de criar um “meme”.
Gill – que, como eu, é admirador de Richard Dawkins e leu seus livros (entre os quais eu recomendo particularmente < http://books.google.com/books?id=4TFqfgjyfU8C&dq=O+Relojoeiro+Cego > “O relojoeiro cego”) – por influência de Dawkins passou a se interessar por < http://en.wikipedia.org/wiki/Memetics > memética, um ramo do conhecimento que estuda os memes, uma unidade de conhecimento abrigada na mente de um indivíduo que, como os genes, tem a habilidade de se propagar influenciando outras pessoas e fazendo-as adotar o conceito. Nas palavras do próprio Gill: “ideias fortes sobrevivem, multiplicam-se e se desenvolvem ao longo do tempo, enquanto ideias fracas perecem”. Uma espécie de “sobrevivência dos mais aptos”, porém no campo das ideias.
 Segundo Gill, frustrado com o IE e com a necessidade de dispor de todas as suas quatro versões para testar cada página desenvolvida, ele decidiu criar um meme que, com alguma sorte, poderia se espalhar e, caso adotado pela maioria dos usuários do IE6, os levasse a abandonar a versão tão cheia de incompatibilidades facilitando a vida dos desenvolvedores.
Acontece que ele fez a coisa tão bem feita, criando um relatório com tamanha aparência de seriedade (aquele em formato PDF cujo URL foi fornecido na seção anterior) e divulgando um comunicado à imprensa tão aparentemente veraz, que o resultado excedeu suas expectativas. Então, como ele mesmo diz, a propagação do meme foi tão rápida que se tornou virtualmente impossível acompanhá-la. E só lhe restou relaxar e aproveitar o final de semana, esperando que a verdade se estabelecesse por si mesma, já que eram claros os indícios de que o relatório era uma empulhação, como dizem os brasileiros, uma pulha, como dizem os portugueses, ou um “hoax”, como dizem os que gostam de pontilhar suas frases em português com uma ou outra palavra do idioma inglês mesmo quando ela tem uma tradução exata em português achando que com isto demonstram conhecimento de um idioma estrangeiro ou denotam alguma sofisticação quando na verdade apenas mostram que se incluem naquela fatia de 3,5 bilhões de indivíduos mencionada lá no início ao misturar idiomas sem necessidade.
Mas voltemos à estupidez que estava sendo discutida para não nos perdermos entre tantas que há por aí e desviarmos o foco: se hoje você visitar < http://www.aptiquant.com/ > o sítio da AptiQuant, que continha o comunicado à imprensa sobre o “estudo”, apenas encontrará um aviso informando que a “empresa” foi criada em julho de 2011 exclusivamente para divulgar o suposto fato de que os usuários do IE têm um QI abaixo da média com o propósito exclusivo de tornar as pessoas cientes das incompatibilidades do programa e que não havia intenção de insultar quem quer que seja.

Como saber que era uma empulhação?
O primeiro a divulgar que o relatório era falso foi a < http://thenextweb.com/microsoft/2011/08/03/internet-explorer-users-are-dumber-story-was-a-hoax/ > seção sobre a Microsoft do sítio TNW (e que, sendo ligados à MS, muito provavelmente usam o IE, demonstrando que afinal não são assim tão estúpidos).
E não foi muito complicado descobrir. Bastou fazer uma pesquisa para identificar o proprietário do domínio (“whois”) em um sítio especializado. Para comprovar, aqui vai, na Figura 9, o resultado de uma destas pesquisas que acabei de fazer.

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Figura 9: Pesquisa para identificar o proprietário de um domínio

Nela se percebe que o domínio da AptiQuant não existia até 14 de julho passado, dias antes de ela divulgar seu estudo na rede. Considerando que no relatório ela informa que foi estabelecida em 2005 e vem fazendo este tipo de pesquisa desde 2006, bastava isto para deixar claro que alguma coisa estava errada.
Mas não é só isto. O próprio Gill fornece outras pistas. O teste de aferição de aptidão que alegadamente foi usado na pesquisa, o “Wechsler Adult Intelligence Scale (IV) test”, tem direitos autorais que proíbem que seja administrado via Internet. O número de telefone da AptiQuant é o mesmo da firma do próprio Gill (e ninguém ligou para confirmar os dados do relatório) e o endereço é inexistente. Havia diversos erros de ortografia no “relatório” e, no pé do comunicado à imprensa, um atalho (“link”) para um sítio desenvolvido pelo próprio Gill.
Como sabem os que costumam ler minhas colunas, eu não sou jornalista. Sou um mero engenheiro ambiental que um dia se apaixonou por computadores e decidiu dedicar uma parte substancial de seu tempo ao conhecimento e, mais tarde, divulgação do assunto. Mas, ainda assim, convivo o suficiente com jornalistas para saber que uma notícia não se divulga assim sem mais aquela.
É preciso – na verdade, é absolutamente necessário – que antes de divulgá-la se faça aquilo que no jargão jornalístico se chama “apuração”. E uma apuração bem feita, além de confirmar detalhes e ouvir mais de uma fonte, consiste essencialmente em verificar a veracidade da notícia.
Então por que, embora fosse tão simples fazê-lo, tanta gente boa, tantos órgãos respeitáveis, tantos (presumivelmente) competentes profissionais do jornalismo se furtaram a fazê-lo?
Afinal, bastava uma consulta à Internet, uma pesquisa de propriedade de domínio, um telefonema...
Não fizeram.
Quanto aos usuários do IE, estes parecem insistir em confirmar os resultados do estudo, mesmo sabendo que não há qualquer estudo a ser confirmado. Pois insistem na estupidez de validá-lo ameaçando processar os autores da empulhação.
O que resultou em um delicioso artigo intitulado “Is Internet Explorer For The Dumb? A New Study Suggests Exactly That” (O Internet Explorer é feito para estúpidos? Um novo estudo sugere exatamente isto). Foi editado, segundo creio, pelo próprio Gill depois de ser ameaçado (e ameaças não apenas de ser processado) por uma irada horda de usuários do IE que insistem em demonstrar o quanto são, efetivamente, estúpidos.

Conclusão
A conclusão é simples.

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Figura 10: Microcefalia

Sabe aquela frase do George Carlin citada lá na primeira seção? Vou repeti-la aqui para não deixar dúvidas: “Just think how stupid the average person is, then realize that half of them are even stupider!” (Considere o quão estúpida é a pessoa de inteligência média, depois se conscientize de que metade das pessoas é ainda mais estúpida que ela!”).
E sabe aquela outra do Albert Einsten que costumo citar com alguma frequência por força das circunstâncias: “Only two things are infinite, the universe and human stupidity, and I'm not sure about the former” (Só duas coisas são infinitas, o universo e a estupidez humana, e eu não estou absolutamente seguro quanto ao primeiro)?
E aquele suposto provérbio árabe que cito de quando em vez: “Oh, Allah, se foste sábio o bastante para impor um limite à inteligência humana, por que não fostes igualmente misericordioso para fazer o mesmo com a estupidez”?.
E uma que eu descobri recentemente, de Harlan Ellison: “The two most common elements in the universe are Hydrogen and stupidity” (Os dois elementos mais abundantes no universo são o hidrogênio e a estupidez”?.
E, finalmente, a frase sem autor conhecido: “A inteligência artificial não é páreo para a estupidez natural”?
Lembra-se delas?
Pois quanto mais eu vivo mais me convenço que todas são verazes...


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B. Piropo

 


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