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B. Piropo
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10/10/2011
< Ig Nobel Prize 2011 – Parte I >

Os que leem regularmente minhas colunas aqui neste ForumPCs já sabem do que se trata, posto que anualmente eu divulgo a relação dos galardoados e seus feitos científicos. Mas para os que não sabem, um esclarecimento: o Prêmio Ig Nobel, assunto desta coluna, não é uma invenção minha nem papo de meia dúzia de desocupados. Muito pelo contrário: é uma contrapartida a seu quase homônimo Prêmio Nobel, e também concedido por uma organização séria, denominada Improbable Research, cujo conselho editorial – responsável pela escolha dos premiados – é constituído por cinquenta membros, quase todos cientistas dos quais a maioria ostenta títulos de mestrado e doutorado e diversos foram honrados com a premiação do galardão concorrente, o próprio Prêmio Nobel.

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Figura 1: rir, depois pensar

A organização edita uma revista que é publicada tanto em papel quanto digitalmente, na Internet, a < http://www.improbable.com/magazine/ > “Annals of Improbable Research” que reproduz pesquisas científicas originalmente divulgadas em respeitabilíssimas publicações médicas, científicas, técnicas e acadêmicas. São pesquisas sérias e o único critério usado para selecioná-las – assim como para escolher os vencedores do Prêmio Ig Nobel – é que sejam pesquisas que “primeiro nos façam rir, depois pensar”. Que, aliás, é o mote da organização (cujo logotipo aparece na figura acima, obtida no sítio da organização) e a definição oficial do que vem a ser uma “Pesquisa Improvável”.
A concessão da honraria é decidida pelo conselho editorial, a divulgação dos escolhidos é feita na mesma época em que a instituição análoga, a Academia Sueca de Ciências divulga os contemplados com seu próprio prêmio, o Nobel e, já há duas décadas, a entrega do prêmio Ig Nobel aos merecedores da honraria é feita com toda a pompa e circunstância no auditório da Universidade de Harvard, o Sanders Theatre, recebendo os laureados seus prêmios das mãos de autênticos ganhadores do Prêmio Nobel.
A cerimônia de entrega do Ig Nobel Prize deste ano foi realizada no dia 29 de setembro passado e na próxima coluna voltaremos a ela, posto que a cerimônia por si mesma mereça toda uma série de colunas (mas serei misericordioso e dedicarei a ela apenas alguns parágrafos, não se preocupem).
Isto posto, vamos ao que interessa: os laureados pelo Ig Nobel 2011 nas primeiras cinco de suas dez modalidades.

Matemática, Química e fisiologia
Comecemos pelo Ig Nobel de matemática 2011, concedido a um punhado de ganhadores (que, por razões que se tornarão claras adiante, não compareceram à cerimônia para receber seus galardões). Todos tiveram o mérito – que os fez merecer o laurel – de ensinar ao mundo que se deve ser mais cuidadoso ao estabelecer hipóteses quando se efetuam cálculos matemáticos. Os vencedores foram: a Americana < http://www.chicagomag.com/Chicago-Magazine/The-312/May-2011/Dorothy-Martin-the-Chicagoan-Who-Predicted-the-End-of-the-World-and-Inspired-the-Theory-of-Cognitive-Dissonance/ > Dorothy Martin que previu o fim do mundo para 1954, o também Americano < http://www.patrobertson.com/ > Pat Robertson, segundo quem o mundo teria acabado em 1982, a – novamente – americana < http://www.nytimes.com/2009/10/17/us/17prophet.html > Elizabeth Clare Prophet, cuja previsão para o final do mundo seria em 1990, o coreano < http://www.lutheranhour.org/stories/stories04/WhenJesusReturns4.htm > Lee Jang Rim, para quem o mundo teria acabado em 1992, a ugandense < http://en.wikipedia.org/wiki/Credonia_Mwerinde > Credonia Mwerinde, segundo a qual o fim do mundo teria ocorrido em 1999 e, finalmente, o americano < http://www.familyradio.com/english/connect/bio/haroldcamping_bio.html > Harold Camping que, inicialmente, previu o fim do mundo para 1994, mas posteriormente corrigiu sua previsão para 21 de Outubro de 2011 – se bem que, em minha modesta opinião, neste último caso penso que o conselho editorial da Improbable Resarch tenha sido um tanto precipitado. Vai que...
O Ig Nobel de Química 2011 foi concedido a toda uma equipe de cientistas japoneses (que compareceu em peso à cerimônia de entrega) formada por Hideaki Goto, Tomo Sakai, Koichiro Mizoguchi, Yukinobu Tajima, Makoto Imai e outros por sua descoberta – descrita e patenteada em < http://www.google.com/patents?id=qmXlAAAAEBAJ > “Odor generation alarm and method for informing unusual situation” – de um alarme odorífico para denunciar situações potencialmente perigosas e, conforme foi esclarecido pelos autores na cerimônia de entrega, acordar vítimas potenciais caso estejam dormindo. Segundo a patente, “o detector detecta a ocorrência de uma situação incomum e libera um sinal de saída. Quando o sinal emitido pelo detector é introduzido no controlador este faz com que a seção motora libere o material odorante de acordo com o sinal de detecção”. O trabalho consistiu principalmente na determinação da densidade ideal do material odorante utilizado. Que se trata da raiz forte, o popular “wasabi”, aquele tempero verde, pungente, usado como acompanhamento de comida japonesa, em forma de “spray”. Um jato daquela coisa densidade certa (determinada pela pesquisa) realmente deve acordar até defunto e duvido que alguém permaneça por muito tempo em um recinto onde tal alarme foi acionado...

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Figura 2: Geochelone Carbonari e seu bocejo

Os ganhadores do Ig Nobel de Fisiologia 2011 foram um grupo de quatro pesquisadores de origens diversas, a saber, a britânica Anna Wilkinson, a doutora  Natalie Sebanz, que consta como cidadã da Holanda, Hungria e Áustria (o que já se constitui em uma façanha por si mesma), Isabella Mandl, da Áustria, e Ludwig Hube, também austríaco. A pesquisa esclarece – pelo menos parcialmente – uma questão que sempre me intrigou e que é explicitada em termos científicos logo no início do trabalho de pesquisa que descreve o experimento, < http://www.currentzoology.org/temp/%7B5FFBCC02-2AEB-4D3C-A7D3-4FCEBB9D54D5%7D.pdf > “No evidence of contagious yawning in the red-footed tortoise Geochelone carbonari”: seriam os bocejos “um padrão de comportamento cujo estímulo é a observação de outro bocejo, ou seja, o resultado da imitação inconsciente emergindo das ligações estreitas entre percepção e ação, ou seriam o resultado da empatia que abrange a habilidade de se envolver em uma atribuição de estado mental”? Quem se der ao trabalho de ler o relato da pesquisa, publicado em oito longas páginas da “Current Zoology”, Vol. 57, nr 4, pp 477-484 cobertas de gráficos e tabelas (das quais foi obtida a figura acima) poderá, afinal, esclarecer a questão: pelo menos entre as tartarugas da espécie Geochelone carbonari o bocejo NÃO é contagioso.  As duas autoras compareceram à cerimônia e receberam o prêmio com garbo e elegância.

Paz e Segurança Pública
O Ig Nobel da Paz 2011 foi concedido a Arturas Zuokas, prefeito da cidade de Vilnius, a capital da Lituânia. Tudo isto porque, para coibir o estacionamento de carros de luxo em locais proibidos em sua cidade de seiscentos mil habitantes, o paspalho resolveu chamar a imprensa e se deixou filmar passando com um carro de combate sobre um sedã mal estacionado, que foi devidamente sucateado. Quem quiser apreciar a cena bizarra encontrará o filmete < http://www.youtube.com/watch?v=V-fWN0FmcIU > aqui. Francamente, achei tudo isto uma senhora basbaquice – tanto a concessão do prêmio como o ato do beócio. Talvez, quem sabe, por viver no Rio de Janeiro e já estar acostumado com prefeitos parlapatões (e não me refiro ao atual, que até o momento tem estado mais para o lado da exceção que para o da regra). Seja como for, o patusco não somente compareceu à cerimônia de entrega como agradeceu comovido a honraria.

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Figura 3: Segurança é isso aí....

O Ig Nobel de Segurança Pública 2011 foi concedido a um único pesquisador, John Senders, da Universidade de Toronto, Canadá, embora no trabalho que o fez merecedor do galardão, < http://cogworks.cogsci.rpi.edu/files/SendersEtAl_DRIVING_WITHOUT_LOOKING.pdf > “The Attentional Demand of Automobile Driving”, constem quatro coautores.  O trabalho se estende por dezessete páginas, está repleto de equações diferenciais e integrais, gráficos, tabelas e referências bibliográficas, além da figura acima, por cuja qualidade me desculpo, mas que corresponde ao máximo de melhoria que consegui do original, já que os que se derem ao trabalho de consultar a íntegra do documento verão que a qualidade de sua digitalização deixa muito a desejar (durante a cerimônia o laureado, que a ela compareceu para receber o prêmio, declarou que os experimentos foram realizados há mais de três décadas, portanto o que se encontra no atalho acima é um conjunto de páginas digitalizadas usando um escâner). O estudo consistiu em quatro experimentos sucessivos cujo propósito foi “determinar empiricamente certas relações entre as características de uma estrada na qual um automóvel é dirigido, a disponibilidade de tempo que o motorista pode dedicar à observação da rodovia, o intervalo entre tais observações e a velocidade com que dirige”. Para isto, submeteram um voluntário à tortura, digo, tarefa, de dirigir um veículo em quatro diferentes situações onde variavam o tipo da estrada, o tempo em que lhe era permitido vê-la e os intervalos em que isto ocorria. Em todas elas, porém, uma viseira opaca (que se percebe levantada no lado esquerdo da figura acima e abaixada no lado direito) subia e descia em intervalos irregulares de tempo e, ao descer, impedia inteiramente que o pobre diabo, digo, motorista, enxergasse a estrada onde estava dirigindo. Confesso que o que mais me impressionou não foram as conclusões, mas a complexidade do tratamento matemático que se pode dar a uma coisa como esta: só integrais, contei cinco, e posso ter perdido alguma...
Pois é isto.
Semana que vem veremos os restantes cinco grupos de laureados.
Sempre lembrando que o melhor deve ficar para o final...
Até lá.

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B. Piropo

 


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