Escritos
B. Piropo
Internet:
< Coluna em ForumPCs >
Volte de onde veio
23/01/2012
< O Big Brother vem aí. O de verdade... >

Toda noite, em qualquer noticiário da TV, notícias – em geral sobre crimes ou acidentes – são ilustradas com imagens capturadas por uma “câmara de vigilância” qualquer. No começo isto só acontecia em grandes cidades e em certos locais particularmente sensíveis, como bancos, instituições financeiras e locais cuja segurança merecia cuidados especiais.

Hoje não.

Figura 1

Qualquer prédio – ou pelo menos a imensa maioria deles – tem câmaras de segurança como as da foto (obtida no sítio < http://aprendaaconstruirereformar.blogspot.com/ > “Aprenda a Construir e Reformar”). E o plural não é casual: em geral são diversas. No edifício onde moro, um prédio simples e antigo de doze andares situado no Flamengo, no Rio de Janeiro, há pelo menos quatro: uma em cada elevador, uma na garagem e uma na fachada, cobrindo as duas entradas e parte da rua em frente. Na fachada do prédio ao lado há mais uma (no interior, não sei quantas mais haverá), e no seguinte ainda mais uma, e assim por diante, de modo que provavelmente não incorro em erro ao afirmar que toda a calçada de ambos os lados e toda a extensão da rua onde moro está permanentemente coberta pela vigilância de câmaras de segurança, cujas imagens são gravadas e arquivadas por certo período. E não se trata de uma rua particularmente importante, pelo contrário: é uma rua comum onde moram pessoas comuns.

Bem, mas isto é em um bairro da Zona Sul, região nobre do Rio de Janeiro, hão de alegar os mais céticos.

Na verdade, nem tão nobre assim. Mas mesmo nas ruas comuns das cidades comuns, inclusive no interior, também são comuns as câmaras de segurança. Talvez não sejam tão numerosas quanto nas grandes cidades, talvez não cubram toda a extensão de todas as ruas, talvez não gravem as imagens nem as armazenem por longo período.

Ainda.

Porque eu não tenho dúvida que daqui a algum tempo – e não muito – cada palmo de rua, cada saguão de edifício público ou privado, cada estabelecimento comercial grande ou pequeno de cada cidade dos países que fazem uso corrente da tecnologia moderna – e hoje, salvo raríssimas exceções nas regiões mais miseráveis do planeta, todos fazem – estará permanentemente coberto por uma câmara de segurança que gravará tudo o que lá se passa.

Por enquanto, naturalmente, com uma péssima qualidade de imagem.

Mas isto, também, é uma questão de tempo.

Melhor qualidade, menor preço

Quanto a TV nasceu – e eu, testemunha ocular da história que sou, acompanhei seu nascimento no Brasil durante os anos cinquenta do século passado – a qualidade da imagem era pífia. A resolução vertical passava pouco das duzentas linhas de pontos que tremeluziam em diferentes tonalidades de cinza, piscando bravamente em um tubo de imagem de raios catódicos no comovente esforço de formar imagens em preto e branco.

Figura 2: Velha TV – Foto da Wikipedia

Agora, são comuns os aparelhos de alta definição, tela plana, LCD ou LED, capazes de exibir alguns milhões de tonalidades de cores em 1.080 linhas de pontos absolutamente nítidos que formam imagens com qualidade extraordinária. E sempre é bom lembrar que a TV de definição “ultra alta” (“Ultra High Definition TV”, ou UHDTV), com suas 4.320 linhas de brilhantes pontos coloridos, está em pleno desenvolvimento.

O mais interessante é que, por artes do mercado, da produção em massa e da evolução tecnológica, esta imensa melhoria na qualidade da imagem não veio acompanhada de um proporcional aumento dos preços (exceto, talvez, nos meses que sucederam o lançamento desta ou daquela novidade). Pelo contrário: hoje, para comprar uma televisão colorida de alta definição, tela plana e tamanho considerável, um chefe de família gasta uma fração muito menor de seu orçamento mensal do que gastava há meio século para comprar uma TV preto e branco de baixa resolução.

Logo, é natural que dentro de algum tempo a qualidade da imagem das câmaras de segurança evolua tanto quanto evoluiu a qualidade da imagem da TV. E não há razão para esperar que esta melhoria da qualidade seja alcançada a preços elevados. Em breve câmaras de vigilância de altíssima resolução custarão tanto ou menos que as atuais.

Portanto, é só uma questão de tempo: cedo ou tarde cada palmo do espaço público (e incluo como “espaço público” os saguões de entrada dos edifícios residenciais e seus elevadores) será coberto por câmaras de vigilância de alta resolução e excelente qualidade de imagem. E com a queda dos preços e aumento da capacidade dos dispositivos de armazenamento de massa como discos rígidos e óticos, estas imagens serão armazenadas por um tempo indeterminado.

Mas não é só isto. Há também o problema da interconectividade.

Tudo ligado a tudo

Ainda me lembro da primeira vez que usei a Internet no final da primeira metade dos anos noventa do século passado. Instalei o navegador, fechei minha conexão via linha discada com a formidável taxa de 56 Kb/s (convém lembrar que meu primeiro modem, usado para acessar os BBS – se é que alguém ainda lembra o que vinha a ser isto – operava na taxa de 2,4 Kb/s) e comecei a “passear pelo mundo”.

Mexe daqui, navega dali, acabei dando com os costados no sítio do Museu do Louvre. Fiquei tão impressionado ao ver as imagens (estáticas, naturalmente; eram meras fotos digitalizadas) exibidas “para mim” em tempo real diretamente do Museu do Louvre, no outro hemisfério, que não me contive e chamei minha companheira para compartilhar comigo aquela maravilha. Uma imagem armazenada nas instalações do Louvre, em Paris, sendo apreciada na tela de meu computador em tempo real!!!

Figura 3: Times Square, em tempo real

Pois agora mesmo acabei de acessar o < http://www.earthcam.com/usa/newyork/timessquare/ > “Times Square Cam” (a imagem está aí em cima, uma captura de tela, para não me deixar mentir). Faça isto você também e aprecie o que estará acontecendo exatamente no momento em que o fizer no coração de Nova Iorque. Agora, por exemplo, dá para ver que faz frio, porque as pessoas estão agasalhadas. E que choveu recentemente, porque o piso ainda está molhado. São poucas as pessoas se movimentando na rua porque ainda é cedo (hoje, com o horário de verão no Rio de Janeiro, a diferença de fuso horário é de três horas e lá ainda são sete e meia da manhã). E como lá é inverno, algumas luzes ainda estão acesas neste escuro início de manhã invernal. Mas não somente a qualidade da imagem é excelente, como consigo ouvir o barulho do trânsito, uma ou outra buzina ocasional. Tudo isto ao vivo e a cores.

Sim, aqui do Rio de Janeiro estou vendo em tempo real o que ocorre em pleno centro de Manhattan usando minha conexão permanentemente ligada, via cabo, de alta taxa de transmissão (“banda larga”) de 20 Mb/s, portanto cerca de quatrocentas vezes maior que a de minha velha conexão discada. E pensar que há pouco mais de quinze anos eu me deslumbrava apenas porque conseguia ver uma reprodução estática de um quadro exibida diretamente do Museu do Louvre.

E vem aí a Internet das coisas, “um mundo onde todos os objetos físicos estarão integrados à Internet e se tornarão participantes ativos nos processos de negócios”.

Quer dizer: em um futuro não muito distante todas as câmaras de vigilância de todas as partes do mundo estarão conectadas à Internet e suas imagens poderão se integrar a um imenso banco de dados cujo alcance dependerá apenas do quanto se pretenda investir nele. E como os recursos computacionais estão se tornando cada vez mais baratos e a capacidade de processamento – sobretudo de processamento gráfico, cuja tendência atual é se integrar aos microprocessadores comuns – torna-se cada vez maior, não há porque não esperar que este banco de dados tenha abrangência mundial. Ou, pelo menos, nacional, já que há problemas de natureza política que talvez impeçam que os dados ultrapassem as fronteiras de certos países.

Reconhecimento facial

No início do tópico < http://electronics.howstuffworks.com/gadgets/high-tech-gadgets/facial-recognition.htm > “How Facial Recognition Systems Work” (“como funcionam os sistemas de reconhecimento facial”) aparece a frase “Quem quer que acompanhe o seriado da TV “Las Vegas” já viu o reconhecimento facial em ação”. E segue adiante descrevendo como a coisa funciona.

Basicamente, o software recebe a imagem de uma face humana e nela identifica certos pontos de destaque, como cantos da boca, pupilas e coisas que tais. Depois, determina suas coordenadas relativas, anotando a distancia Inter pupilar, o afastamento entre os cantos da boca, largura do nariz, formato das maçãs do rosto, comprimento da linha do maxilar e outros parâmetros. Em seguida traça linhas entre certos pontos e determina seus ângulos, formando uma rede cujas posições relativas dos vértices podem ser rigorosamente codificadas, gerando uma estrutura única para cada face. Esta estrutura, em inglês, denomina-se “faceprint” (derivada da designação de “impressão digital” naquele idioma: “fingerprint”). Veja, na figura abaixo, um exemplo rudimentar da aplicação desta técnica na face da moça mais linda do mundo (que os demais fãs da Mariana Ximenez me desculpem, mas ela recentemente perdeu a posição para a jovem da foto, minha neta).

Figura 4: “Faceprint” da moça mais bonita do mundo

A tecnologia do reconhecimento facial ainda está engatinhando. Mas já existe uma página dedicada exclusivamente a ela, a < http://www.face-rec.org/ > “Face Recognition Homepage”, onde além de uma longa lista de < http://www.face-rec.org/research-groups/ > grupos de pesquisas dedicados exclusivamente ao assunto (são dezenas deles), há uma especificamente destinada a discutir os dezessete algoritmos mais usados.

O assunto é sério. Muito sério. Tanto assim que a Universidade Estadual do Colorado, EUA, mantém uma página exclusivamente com o objetivo de criar e oferecer padrões dedicados apenas à avaliação da eficiência dos algoritmos empregados para reconhecimento facial, a < http://www.cs.colostate.edu/evalfacerec/index10.php > “Evaluation of Face Recognition Algorithms”.

Portanto, se alguém tem dúvidas que a tecnologia de reconhecimento facial estará suficientemente madura para ser considerada tão confiável quanto a do reconhecimento de impressões digitais dentro de muito pouco tempo, melhor tirar o cavalo da chuva.

É só esperar.

E não muito.

Juntando as pontas

Nesta altura dos acontecimentos presumo que já tenhamos condições de “juntar as pontas” destes fiapos de conhecimento para chegarmos a alguma conclusão.

Então vamos nessa...

Na coluna passada < http://blogs.forumpcs.com.br/bpiropo/2012/01/16/busca-de-imagens/ > vimos como o algoritmo de busca de imagens do Google foi capaz de, em pouco mais de meio segundo, vasculhar seu banco de dados que armazena, presumivelmente, todas as imagens exibidas na Internet e descobrir uma foto de características similares àquela que lhe foi apresentada como modelo, escolhida casualmente entre as imagens armazenadas em meu disco rígido.

Para os que não leram a coluna: a imagem encontrada pelo Google não foi a mesma usada como modelo. Nem foi um trecho ampliado ou recortado dela. Foi uma segunda foto, também obtida por mim, na mesma ocasião porém em ângulo diferente, do mesmo objeto que usei para ilustrar uma coluna publicada em meados do ano passado.

Como o Google foi capaz de descobri-la em tão pouco tempo entre as centenas de milhões de imagens de seu banco de dados?

Ora, empregando uma tecnologia rigorosamente homóloga à adotada para reconhecimento de fisionomias, ou seja, determinando os pontos (e cores, e formas) relevantes da foto usada como modelo, calculando em tempo real as relações espaciais e cromáticas existentes entre eles, codificando-as (note que a foto original estava no meu disco rígido, o Google jamais a havia “visto” – quero crer nisto com todas as forças de minha rala fé na tecnologia que protege a privacidade de meus dados pessoais – e portanto todos os cálculos foram feitos na hora) e comparando o resultado com os código das imagens existentes na Internet, previamente varridas por seu dispositivo de busca. Enfatizando: o Google foi capaz de descobrir em menos de um segundo a imagem equivalente na rede.

Agora, vamos juntar este conhecimento com os demais discutidos na coluna de hoje.

Pense um pouco: dentro de alguns anos, todas as ruas e locais públicos de todas as cidades do mundo estarão sendo permanentemente vigiados por câmaras de alta definição e excelente qualidade de imagem, capturando vídeos diuturnamente e mantendo-os arquivados por um tempo que pode se estender por décadas.

Todas estas câmaras estarão interligadas via Internet e os vídeos por elas armazenados serão tão acessíveis quanto queiram seus donos. Ou, pior: quanto queiram as autoridades policiais e governamentais da região em questão. Uma espécie de YouTube de alcance mundial.

Estes lugares públicos são os mesmos percorridos por mim, por vocês, por todos nós em nossas lides diárias seja quando trabalhamos, quando nos divertimos ou quando estamos fazendo seja lá o que estivermos fazendo nos lugares em que costumamos – ou que não costumamos – fazê-las. Quer nos seja indiferente que os outros saibam, quer não.

Se não usarmos máscaras, bigodes postiços, perucas ou seja lá o que for para disfarçar a aparência, estaremos percorrendo estes lugares com nossa costumeira fisionomia, aquela mesma que envergamos todo o dia gostando dela ou não.

Figura 4: O “Grande Irmão” de 1984

E esta fisionomia será filmada, sua “faceprint” codificada e, dependendo da vontade das autoridades policiais, governamentais ou seja lá que autoridades forem as que dominarem a tecnologia e as leis, nosso caminho diário, desde o momento em que deixemos a porta de nossas casas até a hora que a ela retornarmos ao final do dia, será traçado passo a passo, identificado, codificado, armazenado e posto permanentemente ao alcance de quem detiver o direito de usar esta tecnologia. Um negócio muito mais assustador que o da obra de ficção de George Orwell, “1984” (sim, houve também um filme, mas por difícil que seja crer, o livro foi indescritivelmente melhor) onde as imagens eram examinadas ao vivo por vigilantes que representavam o “Grande Irmão”.

Espantou-se?

Pois já existe tecnologia para isto. Só falta aperfeiçoá-la um pouco, reduzir um pouco seu preço e se dispor a aplicá-la (na TV americana há uma série, “Person of interest”, retransmitida pela TV a cabo no Brasil, baseada mais ou menos nesta ideia).

Você gostaria de viver em um mundo como este?

Se não, convém começar a se movimentar.

Porque, para mim, tanto faz. Afinal, já passei dos setenta e não tenho muito com que me preocupar.

Mas a moça mais bonita do mundo que vocês viram na foto da outra página só tem três anos e, juntamente com meus outros netos, é a luz de meus olhos. Em benefício dela e dos seus (dela e de vocês todos) filhos e netos, peço encarecidamente: façam alguma coisa...

Porque o risco existe e é de assustar...

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B. Piropo

 


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