Sítio do Piropo

B. Piropo

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05/1997 

Um Carro Muito Peculiar

 

Hoje vamos mudar o tom desta coluna só para variar. E para me dar a chance de discutir com vocês uma questão importante para um grupo de pessoas para quem a informática é a única esperança de levar adiante uma vida produtiva. Um grupo que, na medida que a sociedade vai se tornando mais consciente de sua existência, assume um papel cada vez maior dentro desta mesma sociedade: as pessoas deficientes.

Em uma das faculdades onde leciono tenho um aluno deficiente. Para se deslocar, usa uma cadeira de rodas que não pode movimentar sozinho. Depende da ajuda e da solidariedade dos colegas - ajuda e solidariedade que nunca lhe faltaram, diga-se de passagem.

Tem extrema dificuldade para se comunicar com palavras. Quando necessário, escreve as perguntas em seu caderno - o bastante para manter a indispensável comunicação. Está entre os melhores alunos da turma. O que para mim, com algumas décadas de experiência na difícil mas grata arte de ensinar, é fácil perceber. O profundo interesse com que acompanha cada uma de minhas palavras, a centelha do entendimento que cintila em seu olhar quando os fatos se juntam para gerar o conhecimento, o sorriso que aflora a seus lábios diante do humor de um ou outro comentário meu, tudo isto me garante que o jovem acompanha o curso tão atento como (provavelmente mais que) qualquer de seus colegas.

Sua ferramenta de trabalho será, com certeza, o computador. Para manejá-la, lhe bastam o movimento dos dedos e o brilho da inteligência. Que não foram afetados pela deficiência. Resultado: o computador fará dele um indivíduo tão produtivo quanto qualquer de seus colegas.

Mais um dos pequenos milagres da tecnologia.

Mas será que foi só a tecnologia?

Certamente que não. Além dela, foi preciso que nossa sociedade amadurecesse e encarasse de frente o problema da pessoa deficiente. Porque o acesso à Universidade que lhes garante a possibilidade de se tornar um elemento produtivo, até bem pouco tempo lhes era negado. Já hoje é encarado com naturalidade. Foi um direito conquistado.

A questão é que ainda falta muito a conquistar.

Estes fatos me vieram à mente há poucos dias quando, no pátio do estacionamento de um hotel da Califórnia, passei ao lado de um veículo e algo nele chamou minha atenção. Era uma camioneta tipo van. Esta aí da foto.


Aparentemente, ela nada tem de diferente. Mas eu já ia alguns passos adiante quando me dei conta de algo estranhíssimo: na van não havia nem banco de motorista nem volante. Era isto mesmo ou eu teria me enganado? A coisa me pareceu tão curiosa que decidi atrasar meu café da manhã para investigar o assunto e verificar do que se tratava.

Tratava-se de um veículo adaptado para ser dirigido por uma pessoa deficiente. Na porta traseira direita, que aparece bem no meio da foto, havia um elevador para cadeira de rodas - um equipamento relativamente comum nos EUA. Provavelmente operado por controle remoto, o dispositivo permitia o acesso do proprietário ao interior a van - um salão onde havia apenas o banco do "carona" ao lado da porta dianteira e mais um banco largo ao fundo. No lugar do motorista, somente dois trilhos no piso e os dispositivos que permitiam neles prender firmemente uma cadeira de rodas.

Não havia nem volante nem pedais. Apenas, à direita, um apoio para braço e em frente a ele algo semelhante a um joystick (veja na foto aí de baixo). Tudo isto ligado ao compartimento do motor por um dispositivo hidráulico comandado eletronicamente. Não o vi em funcionamento, mas qualquer um que tenha jogado um destes joguinhos de computador onde se precisa dirigir um carro sabe como funciona: para frente, acelera, para trás freia, para a direita e esquerda faz curvas. E é só.


À esquerda do local do motorista há um painel (que se vê na figura seguinte, junto à janela) com um conjunto de botões que permitem operar as demais funções do veículo: abrir e fechar vidros e portas, acionar freio de estacionamento, engrenar marcha a ré e as marchas de força da transmissão automática e coisas que tais. Em suma: o painel de controle do veículo. Um veículo que garante a seu dono o direito de ir e vir sem depender de ninguém.


Segui dali para meu café da manhã. E enquanto o tomava, matutava sobre o assunto.

O dono do carro, que não tive o prazer de conhecer, certamente era uma pessoa deficiente. Porém, graças a mais este milagre da tecnologia que permitiu adaptar um carro para ser dirigido com um simples joystick, podia se deslocar para onde quisesse - particularmente em um país como os EUA, onde todos os locais públicos são dotados de facilidades para simplificar a vida de pessoas como ele. A eletrônica embarcada em seu carro e seu computador fazem com que ele possa ser tão produtivo como qualquer outro de seus concidadãos.

E foi então que me ocorreu aquele pensamento lá de cima: será que foi só isto? Ou foi também o despertar de toda uma sociedade para a questão da pessoa deficiente?

Sim, porque aquele cara, seja ele quem for, precisou tirar uma licença para dirigir o carro. O que demandou uma carteira de habilitação provavelmente obtida após um duro teste de direção. Uma licença certamente emitida pelas autoridades de trânsito americanas.

Então eu pensei: e aqui no Brasil?

Pois é. Aqui ainda estamos nos conscientizando.

É verdade que a coisa está melhorando. Mas ainda está longe do ideal.

Porque aqui, aquele cara, com aquele carro, não passava nem na porta do DETRAN...

B. Piropo