Sítio do Piropo

B. Piropo

< Trilha Zero >
Volte de onde veio
15/07/2002

< Anatel >


Há cerca de um mês meu telefone emudeceu. Solicitei o conserto e viajei. Dez dias depois a linha continuava muda. Liguei para indagar o que havia ocorrido. A atendente, polidamente mas com o descaso dedicado aos insignificantes, informou que nenhuma providência havia sido tomada. Tive a impressão que estava sendo tratado como aquele bêbado chato que incomoda mas é inofensivo: com polidez e educação, mas sem nenhuma atenção. Embora sem telefone há dez dias, eu era apenas mais um cuja solicitação seria anotada e encaminhada aos costumeiros canais incompetentes. E eu “deveria estar esperando” 24 horas. Agastado mais pelo mau uso do gerúndio que pela demora, anotei o número da reclamação, liguei para a Anatel e registrei o caso. Lá me disseram que a Telemar teria cinco dias para resolver meu problema, “caso contrário seria punida”.

Meu amigo, eu não sei que punição é essa, mas pela reação da Telemar há de ser pior que imersão em óleo fervente: no dia seguinte, chegando em casa encontrei um bilhete de um técnico da Telemar informando que cá esteve e não encontrou ninguém. Quando liguei de volta para informar que sou dado ao feio vício do trabalho e nos dias úteis dificilmente sou encontrado em casa em horário de expediente, ocorreu o inacreditável: a atendente tratou-me como um usuário respeitável e, além de marcar hora para uma visita do técnico, não usou o gerúndio uma única vez! O técnico retornou no mesmo dia e conseguiu o milagre de fazer o telefone falar, embora com um chiado insuportável. No dia seguinte, por mais absurdo que pareça, a própria Telemar me ligou para perguntar se eu estava satisfeito. Disse que não, já que a linha apresentava um ruído intolerável. Lembrei que seria bom que se apressassem, pois restavam apenas três dias para a tal punição e mencionei a palavra mágica: “Anatel”. Daí para a frente senti-me o vip dos vips, o rei da cocada preta, o dono do pedaço: a Telemar praticamente botou um técnico à minha disposição até que a linha ficasse límpida e clara como cachaça da boa (foi necessário trocar o “par”; na verdade, a qualidade da rede é tão ruim que, como nos namoros para casamento, foram feitas diversas tentativas até encontrar um par que prestasse).

Lembrei-me então que há cerca de um ano eu havia comprado um aparelho telefônico com identificador de chamada e, ao solicitar o serviço, soube que “ainda não estava disponível”. Será que a Anatel não resolveria também isso? A gentilíssima atendente me informou que poderia registrar uma queixa contra a Telemar por propaganda enganosa, já que o serviço fora oferecido e não fornecido. E acrescentou a frase sublime: “cinco dias, caso contrário...”

Meninos, eu vi. Foi inacreditável. Na tarde seguinte me ligou um atencioso cavalheiro da Telemar perguntando “se eu ainda queria o serviço”. Evidentemente que sim, respondi, do contrário não o solicitaria. Só não entendia porque ainda não o tinha, já que o solicitara há mais de ano. Descobri, então, uma situação surreal: não era possível instalar o identificador de chamada em minha linha porque nela já havia sido instalado o serviço de caixa postal, e ambos eram incompatíveis. Mas eu não pedi, nunca usei e jamais desejei tal serviço, retruquei. Sim, mas a Telemar o havia instalado gratuitamente porque eu poderia vir a querê-lo, disse-me o cavalheiro. Mas que eu ficasse tranqüilo: a caixa postal seria desativada e o identificador de chamada instalado. Em suma: até então eu não tinha o serviço que precisava porque, à minha revelia e contra minha vontade, a Telemar instalou um que eu não desejava. E como daria algum trabalho removê-lo, era mais fácil informar que o outro “não estava disponível”. Coisas da Telemar.

Essa coluna não é para reclamar da Telemar. Afinal, não adianta bater em cachorro morto. Tem ela, porém, a nobre, insofismável, quase transcendental utilidade de revelar a cabala, a solução do insolúvel, a quadratura do círculo, o sentido da vida, o número mágico: o telefone de reclamações da Anatel. Anote aí, indelevelmente, de preferência na base de seu telefone: 0800-33 2001. E repita-o ritualmente como um mantra toda noite após suas preces.

Acredite: funciona (meu telefone passou a identificar chamadas menos de 24 horas depois da Anatel tomar ciência do caso). Mas para poupar trabalho, antes de ligar registre sua reclamação na Telemar e anote o número para repassar à Anatel. E se porventura alguém descobrir qual é a tal punição que a Telemar teme tão desesperadamente que, ao ser ameaçada com ela, chega ao inimaginável extremo de se fazer passar por uma boa prestadora de serviços, por favor não me conte. Tenho o estômago fraco e não suporto histórias de terror.

B. Piropo