Escritos
B. Piropo
Anteriores:
< Trilha Zero >
Volte de onde veio
07/09/1992

< Uma tarde de domingo >


Geralmente escrevo minha coluna do Globo em uma tarde de domingo. Quando chega o domingo, geralmente a escolha do assunto já foi feita. Na hora, é só batucar neste surrado teclado e deixar as idéias fluírem. Houve um domingo, porém, no qual eu ainda estava sem assunto. Não gosto muito disso: deixar para resolver na hora me aflige. Mas, quando é inevitável, nada a fazer exceto relaxar e aproveitar.

Fora isto, era um domingo como outro qualquer. Saí de casa, como de hábito, para almoçar na casa de D. Eulina. De especial, só a beringela recheada mais sublime que alguém jamais concebeu. De resto, não mais que uma pequena quebra na rotina: no caminho de casa, passar pela casa de um amigo com problemas para configurar sua nova placa de vídeo. Uma bobagem: instala-se um driver e temos conversado. Depois, um cafezinho, um papo rápido e toma-se o rumo de casa. Coisa de quinze minutos. Duas e meia da tarde adentrava eu no escritório do amigo. Ás três, pensava, já estaria em casa.

A máquina, um soberbo 486 com monitor multisynch, placa de som, modem e scanner estava lá me tocaiando. A placa já estava instalada, de modo que era tudo muito simples: afinal, eu sabia que ela era absolutamente compatível com o padrão 8514/A da IBM. Bastava instalar o driver - que, por via das dúvidas, eu precavidamente levava comigo. Dito e feito: chamei o setup de Windows, mudei o tipo de vídeo, carreguei Windows, chamei o Corel só para verificar e lá estavam as esfuziantes 256 cores vibrando na tela. Tiro e queda. Já me preparava para o cafezinho quando veio a pergunta:

-Será que agora o scanner funciona?

Scanner? Que scanner? Porque não funcionaria? Bem, disse o amigo, acontece que depois que a placa de vídeo foi instalada o scanner começou a entremear as imagens com umas estranhíssimas listras pretas. Quem sabe era o driver de vídeo errado? Vamos testar com o novo: chamei o programa do scanner e capturei uma imagem. Que veio cheia de listras pretas. Não era o driver. Pombas, mais essa agora...

Dava com a outra placa? Nunquinha. Então, vamos ver. Abre-se a máquina, repõe-se a velha placa, liga-se para testar: tudo estaria bem se o vídeo mostrasse algo decente. Mas acontece que agora, já não havia sincronismo vertical. A placa velha deu problema: troca-se de novo pela nova, que eu havia acabado de retirar e estava boa. E nada de sincronismo vertical. Parece que pifou o monitor. E era um senhor NEC 3D. Troço chato, seu. Logo comigo!

Depois de quinze minutos um tanto desconfortáveis, descobri que dois dos pinos do conector do monitor haviam se "embutido" na base. Desmonta-se o conector, recoloca-se os pinos nos seus devidos lugares, encaixa-se na placa velha com cuidado, para não fugirem de novo, liga-se a máquina: agora sim! Lá estava a imagem clara e precisa. Basta trocar de novo o driver da placa para o anterior.

Placa antiga, dos tempos de Windows 3.0. Um método de instalação meio besta: copia-se os drivers para o diretório System de Windows e substitui-se o arquivo original Setup.Inf pelo que acompanha a placa. Depois, basta rodar o Setup. Tudo muito simples, se não se tratasse de Windows: por razões só conhecidas pela Microsoft, o programa de setup de Windows 3.1 não lê os arquivos Inf da versão 3.0. Se eu, precavidamente, não tivesse feito uma cópia do arquivo original, teria que instalar Windows de novo. Como fiz a cópia, bastou editar o arquivo Setup.Inf na munheca e incluir as linhas correspondentes aos novos drivers. Mais um argumento para sedimentar minha convicção que Windows inventou o "backward learning": qualquer principiante roda, mas é preciso ser um expert para fazer funcionar. Mas este é outro papo: o fato é que os drivers foram, enfim, reinstalados. Agora basta carregar Windows.

Nessa altura do jogo, a noite já estendia seu manto negro sobre nós (original isso, não?). E Windows, para variar, com os novos drivers, deu pau: conflito de endereço. Mas essa manha eu já conheço: basta excluir dos UMB um certo trecho da memória de vídeo. Dito e feito: entrou Windows, rodou Corel, rodou o programa do Scanner. Tudo perfeito, exceto pelas malditas listras pretas.

Bem, parece que não era a placa. Numa hora destas, só resta o recurso do strip-tease. Meu não, nem pensar: da máquina. Despe-se a bicha de tudo o que não é indispensável e tenta-se de novo. Batata: sem modem e sem placa de som, sumiram as listras pretas. Volta o modem: tudo OK. Volta a SoundBlaster: listras pretas.

Mas o problema não apareceu com a nova placa de vídeo? Bem, na verdade a de vídeo e a de som foram instaladas juntas. Como som nada tem a ver com scanner, meu amigo inferiu que o conflito fosse com o vídeo. Parecia lógico, pois não? Mas há mais coisas entre uma CPU e um barramento do que pode sonhar nossa vã filosofia. Entre as quais duas particularmente delicadas: interrupções e acesso direto à memória. Que costumam conflitar.

Mas agora, identificado o culpado, tudo era mais simples. Basta descobrir o que está conflitando com quem. Em um caso destes, costumo usar a última palavra da tecnologia investigatória, o estado da arte, um método moderno e infalível: a técnica denominada "ensaio e erro". Consiste basicamente em ir mudando IRQs e canais de DMA até que o conflito acabe. Comecei botando tudo nos lugares tradicionais, depois mudei um a um com a ajuda do checkit: bingo!

Era a DMA. Ajustado o scanner para o canal 3, ficou tudo na mais perfeita. Rodou Windows, rodou Corel com todas as suas 256 cores, rodaram todos os programas barulhentos com o som nos conformes, rodou o programa do scanner e sumiram as listras pretas.

Sete e meia da noite, montei tudo de novo, despedi-me do amigo e tomei o rumo de casa debaixo dos mais efusivos agradecimentos.

Pombas, pensei eu: o cara me serve um cafezinho delicioso, me propicia uma tarde das mais agradáveis, fazendo justamente o que eu mais gosto, me arruma assunto para a coluna e ainda me agradece? Esse mundo está perdido...

B. Piropo